Dani Cavalier

Dani Cavalier (1993, Rio de Janeiro) vive e trabalha no Rio de Janeiro. Através de desenhos, pinturas, instalações e esculturas, a artista explora temas relacionados ao corpo, à espiritualidade e à história do poder e da marginalização das mulheres.

Nos últimos três anos, Cavalier tem desenvolvido sua pesquisa e prática artística em torno do que chama de "pinturas sólidas." Partindo dos elementos fundamentais da pintura convencional — como o chassi, a tela tramada, as cores e a noção de composição — ela substitui tinta e pincel por retalhos coloridos de Lycra advindos de fábricas de moda praia do Rio de Janeiro. Ao criar essas pinturas sólidas, a artista trabalha com justaposições de blocos de cor e a materialidade do tecido, que substitui a tela tradicional e envolve o chassi. O resultado é uma composição entrelaçada de cores que existe sem um dentro ou fora, sem frente ou verso, e que estabelece uma relação participativa com o espectador quando em grandes formatos.

Acredito no estúdio como a materialização da minha cabeça. Como se a minha cabeça fosse um espaço: umas horas ela fica cheia e bagunçada, cheia de lycras no chão, livros ora abertos, ora servindo como frases existindo no ar com suas lombadas à vista. Repetidamente faço o ritual de faxinar tudo. Isso inclui limpar todas as prateleiras e objetos, passar pano e defumar. Sempre que obras saem, faço isso. E sempre que sinto que preciso, paro tudo e também faço. Algumas horas está totalmente vazio, outras horas entulhado de trabalhos, um ajudando o outro a me guiar. Reseto minha cabeça sempre com a limpeza.

Meu estúdio fica na região serrana do Rio de Janeiro, na zona rural de Teresópolis. Minha casa fica no fundo de um vale. Aqui moramos eu, minha noiva, nossos Rottweilers, nossa pastora-alemã e nossa vira-lata, a uns 2 km de raio do próximo ser humano.

Meu ateliê fica sob o mesmo telhado da minha casa, mas desenhei-o tendo uma entrada independente justamente para preservar o ritual de sair de casa para trabalhar. E assim dou meia-volta pela casa e lá chego no meu ateliê.

Pé-direito duplo, luz do sol poente entrando de rasante. Paredes brancas no lado oposto das janelas para difundir a luz, uma mesa grande para desenhar, cortar tecidos e embalar obras que já se vão. Duas cadeiras. Uma sempre no lugar usual: junto da mesa. Mas a outra perambula pelo espaço para ver os trabalhos; vou colocando-a em lugares diferentes de acordo com as obras que faço, para ver por outros ângulos.

Organizo meus resíduos de Lycra em muitas caixas transparentes. Umas 50, porque é o que cabe. Senão, teria mais. Todas cheias de tecidos catalogados, selecionados por mim, um a um.

Quando os resíduos chegam, eles passam por uma catalogação que serve também como uma neutralização dessa matéria vinda de um mundo externo; é nessa hora que eu ritualizo a chegada dessas massas de cor e elas adquirem uma neutralidade de energia. Prontas para assumir outra energia. Hoje em dia separo por tons e tipos de tecidos, mas talvez mude isso.

Tenho uma parede-estante de cadernos passados, livros importantes, ferramentas básicas de ateliê e meus altares. Um altar para Cigana Sara, outro para Maria Conga d’Angola. Elas são duas entidades que guiam minha vida e meu trabalho.

Na minha mesa, sempre à mão, carrego o livro de Agnes Martin com seus escritos, o qual consulto como oráculo e que, sempre que abro, me guia precisamente.

Com o passar do tempo, criei rituais para entrar, permanecer e sair do ateliê, como trabalhar pelo tempo de velas (às vezes uma vela inteira, às vezes duas), trabalhar por tempo de álbuns ou de filmes inteiros, e mudar tudo de lugar se uma obra me pede.

Pensando bem, a única coisa que nunca muda aqui é o som de água caindo. Fiz uma janela que abre para o rio que passa atrás da floresta; não consigo vê-lo, mas o som preenche o espaço constantemente. Algumas coisas precisam ser constantes, afinal, todos temos que nos segurar em alguma coisa.

Meu estúdio é minha cabeça.

You can find out more about Dani Cavalier at @cavalierdani //  galatea.art/artists/

Photos: Demian Jacob , Cassio & Courtesy of Galatea Gallery.

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