Uma casa, um percurso — e a construção de uma galeria
Foto: Marcus Steinmeyer & Cortesia da Apartamento 61
Locação: Apartamento 61
Palavras: Anita Goes, André Visockis & Vivian Lobato
São Paulo/New York, 2025
Antes de existir como endereço, a Apartamento 61 foi um gesto cotidiano: a necessidade de preencher um apartamento vazio — e, sem perceber, abrir um caminho profissional que uniria curadoria, design, pesquisa e narrativa.
“A gente começou, anterior à casa, sendo um site”, conta Vivian Lobato. Ela, jornalista; André Visockis, designer gráfico. Jovens, recém-morando juntos, sem mobília e com o centro de São Paulo como bússola.
A dica veio de uma amiga: em vez de repetir o roteiro óbvio do “móvel pronto”, por que não garimpar? “Vocês deviam ir às lojas do centro… é o mesmo preço, mas às vezes você acha umas coisas legais”, lembra a conversa. O que era necessidade virou preferência. E o que era preferência virou método.
Ao começar a mobiliar a própria casa, Vivian e André se viram atraídos por uma estética que fugia do padrão da geração deles. Sem “iniciação” no circuito do colecionismo, mas com uma sensibilidade visual bem treinada, foram formando uma casa que chamava atenção — e com ela, surgiram os primeiros pedidos.
“As pessoas começaram a me pedir dica… ‘vocês conseguem me ajudar?’” O que vinha como conversa de amigos virou uma prática: localizar, selecionar, orientar. O olhar curatorial — ainda sem esse nome — já estava ali.
E como acontece com todo colecionismo (mesmo o informal), veio a inevitabilidade da troca: “Não cabe dois buffets no apartamento… tinha que arrumar alguém pra ficar com o buffet anterior”, resume André. A logística empurrou o hobby para o negócio.
A Apartamento 61 nasce, de fato, quando o cotidiano deixa de caber apenas em casa e passa a pedir estrutura. O ponto de virada veio em um momento de ruptura: André saiu da agência, começa a trabalhar de casa e aparece com um plano.
“Eu vi umas oportunidades… a gente pode começar online, porque não vamos ter muito essa coisa do custo fixo”, lembra Vivian. André desenhou os layouts, Vivian escreveu os textos, e o site entrou no ar. Era 2013/14 — o Instagram ainda orgânico, cronológico, sem algoritmos como filtro. E, naquele momento, quase ninguém no setor estava fazendo isso de forma consistente.
Havia também um diferencial raro: autenticidade. O que eles contavam era real — e por isso conectava.
O primeiro grande teste veio num evento de apresentação da marca — e a resposta foi imediata. “Bombou… a gente vendeu quase tudo”, recordam. O que parecia “um site” começou a se afirmar como plataforma, comunidade e mercado.
Com o crescimento, a operação migrou naturalmente de objetos para móveis — e, junto, surgiu um ponto crucial: o vintage precisa de presença. “Você vai comprar uma poltrona… você não quer comprar 100% online”, explica André. A peça tem corpo, história, marcas, restauro, estrutura. Ver ao vivo deixa de ser luxo; vira critério.
Eles passaram a receber no apartamento. O “negócio enxuto” esbarrou num limite concreto: “Existe um limite do quanto dá pra você, de fato, revolucionar”, admite André. Algumas ideias românticas do empreendedorismo também foram sendo lapidadas — como a tentativa de “preço transparente” que, apesar de ética e instigante, confundia o público e dependia de volume impossível para um mercado de peças únicas.
“Não tem como escalonar muito o nosso negócio… é nicho pra caramba”.
Um encontro com um comprador internacional reorganiza tudo. Vivian e André passam a acompanhar um cliente estrangeiro que compra intensamente e, com isso, eles entram — por dentro — na engrenagem do mercado global de design brasileiro.
Para as peças saírem do país, foi preciso profissionalizar de verdade: CNPJ, exportação, burocracia, “radar”. Eles entram onde quase ninguém queria entrar. “Nenhuma loja… ninguém queria exportar peças”, conta Vivian. E, de repente, um casal que vendia online estava abrindo caminho para algo maior: uma rede internacional de circulação do design moderno brasileiro.
Mas essa visibilidade também traz custo: o boom internacional acelera a demanda — e, mais tarde, alimenta falsificação e disputa.
A procura de uma casa
A procura por um espaço físico foi longa e cheia de sustos: reformas caras, incerteza, casas “caixa-surpresa”. Até que aparece uma casa “com fotos ruins” e uma descrição que mudou o destino do projeto: a antiga casa de Victor Brecheret, com reforma de Rino Levi.
“Eu li o descritivo… ‘casa do escultor Victor Brecheret’. Eu falei: Nossa! Ainda tem história nessa casa.”
O endereço era inacreditavelmente íntimo: “Atrás do prédio da minha avó. Como nunca vimos essa casa?” E havia um elemento raro: os proprietários, ligados à família Brecheret, queriam alguém que entendesse a importância da arquitetura e do lugar.
A mudança veio com coragem e improviso. “Mudamos assim, na fé e na coragem”, diz Vivian. Vieram os primeiros funcionários, o tempo real da obra, a abertura que virou evento-cidade: “Foi uma loucura… patrocínio da Heineken, virou tipo uma mega festa.”
E então, algo essencial: as pessoas descobriram que aquela casa existia — embora estivesse ali o tempo todo, escondida atrás do muro. “É uma casa muito perto de tudo e ninguém sabe.”
Pandemia: o vintage como resposta rápida e o crescimento do sistema
Durante a pandemia, quando parecia impossível receber gente numa casa com o bebê do casal, o negócio cresceu. O público com alto poder aquisitivo passou a investir no espaço doméstico — e a Apartamento 61 tinha o que poucos tinham: operação online madura e entrega rápida de peças restauradas.
“A gente já tinha toda a operação rodando… e vendeu muito bem”, afirmam. O vintage, naquele período, foi uma solução também para gargalos de produção e importação do mercado convencional.
Mas o crescimento trouxe outro problema: logística e vida doméstica misturadas. Surgiu um segundo espaço (Rua Cristiano Viana), depois da constatação de que o público não fazia o “vai-e-volta” entre pontos — e, com o tempo, veio a decisão de concentrar novamente a operação na casa da Rua João Moura.
Hoje, a Apartamento 61 fala cada vez menos com a ideia de “decoração” e cada vez mais com a lógica de galeria: calendário expositivo, curadoria, contexto, narrativa, mix entre vintage e contemporâneo.
“Nosso negócio é muito mais próximo de uma galeria de arte do que de uma loja de móveis”, afirma Vivian. Essa percepção se intensifica conforme o mercado muda: “Hoje em dia… toda semana abre um Instagram novo de vender vintage”, diz André.
E, mais sério: o boom internacional elevou preços, reduziu “achados”, e ampliou falsificação.
Por isso, o futuro é claro: “O contemporâneo cada vez mais contemporâneo”, diz André. Não como modismo, mas como sobrevivência e visão. O vintage ainda sustenta, mas o contemporâneo constrói horizonte, relevância e linguagem própria.
Ao mesmo tempo, eles reconhecem o desafio: o colecionador de vintage nem sempre é o colecionador contemporâneo. O papel da casa, então, volta a ser decisivo: ela permite visualizar o encontro — e o encontro convence.
“Quando o cliente visualiza, ele fala: ‘pô, pode ficar legal’.”
Um dos novos caminhos do projeto é a representação de artistas. A primeira é Paola Muller, cuja prática se desenvolve na interseção entre design têxtil, pesquisa de materialidade e linguagem gráfica. A partir do tricô, ela cria superfícies e objetos que exploram cor, estrutura e padrão, combinando processos artesanais com modos contemporâneos de produção.
A escolha dos materiais também é central em sua pesquisa. Em seus tapetes, por exemplo, utiliza fios como o Econyl, uma fibra regenerada produzida a partir da reciclagem de redes de pesca e resíduos têxteis, alinhando processo e matéria a princípios de durabilidade e responsabilidade ambiental.
E talvez essa seja a chave do projeto: a combinação rara entre pesquisa e sensibilidade, curadoria e vida real, disciplina e improviso. Afinal, a Apartamento 61 começou tentando preencher um vazio doméstico — e acabou criando um lugar no mercado onde design, história e experiência convivem como devem: com tempo, cuidado e presença.
O nome, veio claro, do apartamento 61, endereço onde André e Vivian começaram não só o seu próprio negócio, mas uma parceria que os une há mais de uma década.
Uma trajetória feita de tentativa e precisão
A história da Apartamento 61 não é a narrativa linear de quem “planejou” tudo. É mais interessante: é a história de quem aprendeu fazendo, ajustou rota, e construiu consistência com pouco glamour e muita atenção.
“Foi tudo muito tentativa e erro… e a gente foi amadurecendo junto com o negócio”, diz Vivian.
Apartamento 61: @apartamento61 // apartamento61.com.br
Marcus Steinmeyer: @marcus. steinmeyer
Paola Muller: @lolamuller
Anita Goes @anitagoes