Daniel Jorge

Nascido em Recreio, Minas Gerais, em 1991, vive e mantém ateliê em Salvador, Brasil.

Daniel Jorge investiga as relações entre linguagem, geografia e trabalho. Com uma prática que se estende entre escultura, instalação, performance, videoperformance e desenho, o artista emprega e desloca materiais mundanos de peso e valor histórico, econômico e simbólico, como a pedra-sabão, pedra-talco, o ferro, o carvão e a madeira. Boa parte desses materiais ele obtém por escambo, e não por compra, o que imprime a cada objeto uma série de histórias que servem como guia ético para a obra.

Quando chego ao ateliê, acendo uma vela. Faço as minhas contemplações, passo um café ou um chá, e só depois encosto na pedra. Processo é uma palavra que eu quase não uso; costumo pensar mais na prática como um ritual.

Meu estúdio fica no Barbalho, em Salvador, um bairro no cinturão histórico da cidade. Estou nele há cinco anos, e na cidade há seis. Penso esse lugar como um sistema de educação: ali eu aprendo, quem está comigo aprende, e é desse aprendizado que as coisas se desdobram.

Com os materiais a relação é de negociação, e ela começa na rua. Eu caminho muito, às vezes por quilômetros, para fabular, e é andando que as coisas aparecem. O piche que eu uso é emulsão asfáltica, a mesma de obra de rua, a mesma que impermeabiliza lajes e telhados. Passei por uma turma pavimentando aqui no bairro e fiquei olhando o tom daquele preto, o movimento de quem aplicava. A troca veio depois, numa sexta-feira: vinte litros por umas caixas de cerveja. O azul é resto de tinta de gráfica; o ferro vem de ferro-velho ou das ruas ; a pedra vem de Minas, combinada com quem tira. Eu chamo isso de escambo: moedas criadas a partir do trabalhador e das comunidades.

Dentro do ateliê a negociação continua, porque o material responde. O piche, que na rua pavimenta estrada e veda telhado, na pedra vira uma pele fina. O azul, quando encontra o carvão, abre o quartzito que a pedra guarda, e ela passa a brilhar de um jeito que eu não controlo. O ferro eu oxido com sal, água e vinagre, ou, outras vezes, com líquidos químicos, e nesses dias o ateliê inteiro cheira a vinagre. Pintar a pedra, para mim, é conversar com ela.

A pedra-sabão é mole, a unha risca. Eu tiro dela ponto por ponto: a ponta bate, arranca um grão, deixa uma cova. Numa peça pequena já contei mais de dez mil batidas. Essa repetição pertence ao rito. Tem música tocando e tem alimento por perto, o tempo inteiro. Cantaria é o nome do ofício de quem lavra a pedra, e eu escuto ali dentro a palavra canto.

A técnica tem nome, apicoamento, mas eu chamo de escarificação. Quando o corte corre pelo comprimento da pedra, vira sulco, uma escarificação contínua. O queloide vai no sentido contrário: é o relevo que cresce para fora. O primeiro que eu conheci é meu. Aos cinco anos caí de queixo numa pedra, cortei a língua, não teve hospital, e ela cicatrizou sozinha.

Tenho três lugares de nascimento, e os três entram no ateliê comigo. Recreio, na Zona da Mata de Minas, é o de certidão, em 1991, a cidade do meu avô Sebastião, sapateiro, que perdeu a visão e para quem eu fazia desenho em relevo, para ele ler com a mão. Os relevos de parede vêm desse desenho. Curumaú, na Zona Oeste do Rio, é onde fui criado, num bairro plano, de beco e viela, levantado em mutirão. Dali ficou o verbo do pedreiro, que é o ofício do meu pai: assentar. Salvador foi escolha. Foi onde aprendi a boiar, que é entregar o peso à correnteza, e o equilíbrio de algumas esculturas vem daí, pedra e corrente de ferro se sustentando só pelo peso.

No que eu faço, os três chegam juntos e se contaminam. As festas também: a folia de reis e o mineiro-pau, o bate-bola, o Nego Fugido são para mim a mesma tríade. Meu avô puxava folia e fincava bandeira nos festejos, e é por isso que eu chamo de bandeira as esculturas autoportantes. Eu me encontro com o meu trabalho porque me encontro comigo o tempo inteiro.

Em Cantaria, minha exposição na Mendes Wood DM, em São Paulo, há uma linha de pedra-sabão que corre dezoito metros de parede. Chama-se Arquivo, Estrada, Rio. Os sulcos são essas escarificações contínuas, e dentro deles eu abri nichos e guardei coisas: uma moeda, uma fileira de pregos, uma argola, um pedaço de tapete, seixos. Rio também é estrada. Tem bifurcação, tem foz, e quase ninguém sabe dizer onde um rio começa e onde acaba. Num croqui eu escrevi que navega em rio quem sabe ler suas correntezas. Correnteza puxa corrente, e corrente é elo. Por isso uma estrada também é rio. 

Foi na praia, em Salvador, que eu entendi que em Minas a gente também tinha direito à água: era o rio.

Você pode saber mais sobre o trabalho de Daniel Jorge aqui: @daniel.jorge_

Fotos: Isadora Mourão, Renan Benedito, StudioEmObra, Gui Gomes. Cortesia do artista e Mendes Wood Gallery.

Notas editoriais

Curumaú. Localidade da Taquara, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, em torno da Estrada Curumaú. A região sempre foi tratada como Zona Oeste; uma lei municipal de 2025 passou a chamá-la de Zona Sudoeste.

Folia de Reis. Festejo do catolicismo popular, de origem ibérica, em que grupos de cantadores e tocadores percorrem as casas entre o Natal e o Dia de Reis, 6 de janeiro, levando a bandeira dos Santos Reis e cantando versos puxados por um mestre. É muito presente no interior de Minas Gerais.

Escambo. Troca direta de bens ou serviços, sem moeda. No Brasil, a palavra também nomeia as trocas do início da colonização, no século XVI, quando portugueses obtinham pau-brasil e trabalho de povos indígenas em troca de ferramentas e outros objetos. Na prática do artista, é o modo de obter materiais em negociação direta com quem trabalha com eles e de estabelecer uma nova economia a partir da própria palavra: escambo.

Piche. Nome corrente, no Brasil, do betume: derivado escuro e viscoso do petróleo usado para pavimentar ruas e impermeabilizar lajes e telhados. Dele vem a palavra pichação, a escrita em muros. O material usado pelo artista é a emulsão asfáltica, o betume disperso em água das obras de pavimentação.

Pedra-sabão de Minas. Esteatito, rocha metamórfica rica em talco, macia a ponto de ser riscada com a unha e resistente ao calor. É extraída na região de Ouro Preto, em Minas Gerais, onde serve há séculos à escultura (os Profetas de Aleijadinho, em Congonhas, são de pedra-sabão) e à fabricação de panelas.

Bate-bola. Também chamado clóvis. Brincante mascarado do carnaval dos subúrbios do Rio de Janeiro, que sai em turmas, todos com a mesma fantasia, batendo uma bola no chão. É patrimônio cultural imaterial da cidade desde 2012.

Nego Fugido. Encenação de rua feita há mais de um século pelos moradores de Acupe, comunidade quilombola de Santo Amaro, no Recôncavo da Bahia, nos domingos de julho. Conta a luta de escravizados que vencem o rei de Portugal e exigem a carta de alforria.

A linguagem opera na obra de Jorge como origem e como estrutura organizadora. Ainda criança, o artista talhava em madeira desenhos em relevo para o avô, que tinha deficiência visual, para que as imagens pudessem ser lidas com as pontas dos dedos, uma primeira compreensão da forma como algo feito para ser tocado, e não visto, e o início de sua prática escultórica. Daí vem o MkCode, uma colíngua construída entre o mim da fala popular brasileira, classificado pela escola como erro gramatical, e o Khar de uma África imaginada. Signo, sintaxe, sotaque e mapa ao mesmo tempo, o MkCode estabelece os termos pelos quais a obra se dirige a quem a vê.

Em vez de tratar o material como suporte fixo, Jorge submete cada um deles ao mesmo princípio: testar até onde a matéria pode ir e deixá-la responder. A pedra-sabão é dividida com cunhas, entalhada e escarificada em incisões, perfurações e sulcos, gesto que depois se inverte em saliências queloidais que tornam difícil dizer se a forma resulta de subtração ou de adição. O carvão produzido no ateliê oxida a superfície e libera o quartzito que atravessa a pedra, de modo que as peças pigmentadas ganham um brilho que nenhum gesto poderia planejar, enquanto a emulsão asfáltica deposita uma fina pele negra sobre a matéria. O ferro é oxidado com sal, água e vinagre até o tom castanho da ferrugem e então incrustado na pedra entalhada ou cravado na madeira, e por vezes constitui a obra inteira, ou quase toda ela. Operando entre imagem, som, vídeo, performance, desenho, escultura e instalação, o artista organiza, reorganiza e desorganiza as relações e as imagens que podem caber ou friccionar entre a tríade linguagem, geografia e trabalho, e que formam, em sua obra, um corpo e uma economia onde quase nada se repete e toda matéria é mutável.

Entre suas exposições individuais recentes estão Cantaria, Mendes Wood DM, São Paulo (2026); Geografias de um Corpo Bússola, Caixa Cultural, Rio de Janeiro (2026); e Era do Escambo, Paulo Darzé Galeria, Salvador (2025). Sua obra integrou exposições coletivas como Aberto 5, Casa Bola, São Paulo (2026); Aberto Rua, São Paulo (2026) Afro-brasilidade, FGV Arte, Rio de Janeiro (2025); Tempo Composto, Galeria Athena, Rio de Janeiro (2025); Conspiração dos Ícones, Carpintaria, Rio de Janeiro (2024); Ecos Malês, Casa das Histórias de Salvador, Salvador (2024); Raízes: Começo, Meio e Começo, MUNCAB, Salvador (2024); e Um Defeito de Cor, MUNCAB, Salvador, e Sesc Pinheiros, São Paulo (2023).

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