Meu ateliê é um espaço de encontro com os materiais, onde reúno matérias, formas, técnicas que me interessam e por ali começo. Esse começo muitas vezes se dá pelo próprio fazer. A prática me permite perceber os materiais, entender seus limites, possibilidades, significados. À medida que trabalho, a pesquisa vai tomando forma.
Os materiais, de certa forma, me orientam: como eles se aproximam, se afastam, se complementam, como reagem uns aos outros e à minha presença. Gosto do trabalho manual, de sentir o peso, a resistência, a textura, a temperatura das coisas. Meu ateliê é como uma oficina, onde aplico e invento processos, construo, monto, desmonto. Há muita tentativa e erro. Algumas coisas dão certo, outras não, outras tomam seus próprios rumos, distanciando-se do que eu imaginava. Os trabalhos vão acontecendo aos poucos, entre decisões e acidentes.
Meu espaço às vezes parece um canteiro de obras. Muito do que utilizo vem da construção civil. Terra, cimento, madeira, moldes, ferramentas, restos, fragmentos vão se acumulando e se misturando. O espaço vira uma bagunça onde tudo parece estar em movimento. E existe uma beleza nesse canteiro, em que as esculturas parecem nascer do chão.
Venho utilizando também técnicas de construção tradicionais, como adobe e pau a pique. A terra rica em óxido de ferro da região de Belo Horizonte (MG, Brasil), onde cresci, acaba se espalhando pelo espaço. Um pó fino, avermelhado, cobre as superfícies, trazendo a memória daquele chão para o ateliê.
Costumo trabalhar com gestos simples como empilhar, apoiar, amarrar, sustentar. Gosto da inteligência das mãos que existe nesses modos elementares de fazer arquitetura. Na série Colunas- pilha, por exemplo, cada escultura é composta por volumes feitos com variados materiais e processos de construção, como adobe, bambu, madeira, concreto, cerâmica, ferro. Esses volumes são reunidos e empilhados uns sobre os outros, erguendo uma coluna. São diferentes matérias que se sustentam e se completam na constituição de uma unidade arquitetônica.
Cada camada carrega um modo de fazer, um tempo e um lugar. Como descascar uma parede e descobrir sua história nas diversas camadas de técnicas e materiais utilizados em sua construção.
Saiba mais sobre Bruno Cançado: @brunocancado // brunocancado.com
Fotos: Cortesia do artista.












