Meu trabalho nasce da minha experiência de crescer em uma cidade (São Paulo) onde o crescimento desenfreado e os efeitos das violências coloniais podem ser sentidos tanto no tecido urbano e na maneira em como a paisagem é subjugada aos interesses humanos, como nos corpos das pessoas que habitam o lugar. Desde pequena tive um desconforto com a falta de identificação com os monumentos e marcos que foram escolhidos para representar as histórias desse lugar e a falta de possibilidade de um sentimento de pertencimento (tanto do ser pessoal como do ser coletivo). Daí começa uma jornada (com seus primeiros passos ainda dentro da faculdade de arquitetura, onde me formei) de experimentar criar situações, espaços e símbolos (em pinturas, esculturas, desenhos, vídeos, fotografias) onde possa se criar novamente a possibilidade de reconexão.
Talvez por causa da minha formação em arquitetura eu me sinto bem trabalhando em escala grande e fico feliz quando tenho a oportunidade de criar trabalhos imersivos, que possam ser sentidos com o corpo todo, onde quem o experiencie possa fazer parte da obra. Mesmo que nem sempre eu tenha a oportunidade de trabalhar em grande escala, mantenho sempre um caderno ou pinturas e desenhos com os conceitos. Com esses trabalhos eu espero oferecer uma possibilidade (mesmo que temporária) de acolhimento e pertencimento. Gosto de pensá-los como um espaço onde se possa estar em relação com a natureza, com o nosso ser interno e com os seres ao nosso redor.
Existe nesse gesto a esperança que esse temporário estado de cuidado, de conexão e pertencimento possa dar algum sentido ou ferramentas necessárias para caminhar para um futuro mais equilibrado, com uma pegada mais leve, onde possamos lembrar de nossa interdependência e nosso papel nesse cuidado mútuo. E que isso inclui poder cuidar da força que cada um carrega dentro, a dádiva que cada individualidade carrega e a contribuição que cada um tem como ser de um ecossistema.
Existe nesse gesto a esperança que esse temporário estado de cuidado, de conexão e pertencimento possa dar algum sentido ou ferramentas necessárias para caminhar para um futuro mais equilibrado, com uma pegada mais leve, onde possamos lembrar de nossa interdependência e nosso papel nesse cuidado mútuo. E que isso inclui poder cuidar da força que cada um carrega dentro, a dádiva que cada individualidade carrega e a contribuição que cada um tem como ser de um ecossistema.
Muitas vezes esse entendimento não está tão aparente na forma como os trabalhos se materializam, não são características necessariamente explícitas nas obras, mas são fundante na forma como eu trabalho: desde o ateliê, meu trabalho como educadora, como colaboradora (com outros artistas, líderes comunitários, pensadores, curadores) e organizadora. Tem algo nesse não explícito ou não evidentemente aparente do trabalho que tem a ver com dar espaço, intencionalmente, para que a pessoa que entre em contato com o trabalho de forma autônoma, que possa criar sua própria rota ao navegá-lo, sua relação, forma de experienciar-lo, de ativar-lo, de torná-lo seu, de certa forma. É um trabalho mais interessado em ser um convite, um “ponto de começo” que uma afirmação, um “ponto final”, definitivo. Como um mapa (ao invés de caminho traçado) ou uma caixa de ferramentas (mais que uma única solução dada).
Tem algo de confiar nas pessoas, na arte e na importância de estar em um permanente estado de transformação. De estar pulsantemente viva. E oferecer essa pulsão para que ela possa ressoar com a pulsão do outro.
Meu trabalho se apresenta em ciclos, onde tem essa raiz e fio fundante de sua origem, mas que em cada ciclo toma forma de maneira totalmente diferente, talvez como a lagarta e a borboleta, ou a árvore, que cai e vira tronco em decomposição e húmus para a próxima árvore. Na prática isso significa que a cada ciclo possa parecer ser um começar do zero, sendo experimental e fazendo coisas que nunca fiz antes: algo que já aconteceu com cerâmica, tingimento natural, cianotipia, etc (cada trabalho pede uma técnica e material).
Como artista autodidata quase todos meus trabalhos foram feitos à partir de uma “técnica” que eu não conhecia ainda ou que nunca havia tido acesso, mas que era necessária aos assuntos, formas e imagens pediam para ser apresentados. Os materiais para mim são sempre muito importantes e muitas vezes eles além de serem um veículo de contar as histórias, eles são a própria história, são carregados de sentido em sua matéria. E para mim a materialidade é muito importante, é nela que acontece esse encontro do corpo da pessoa com o corpo do trabalho, possibilitando que o trabalho possa ser experienciado de forma holística.
A escolha dos materiais carrega também uma preocupação de fazer um trabalho fundado no cuidado, assim como nos temas que guiam o trabalho, com o cuidado das pessoas, da natureza, do corpo, do espírito, do bem estar, da vida, da pulsão de cada ser, de dar força, o material e a forma de fazer tem essa preocupação de não sobrecarregar ninguém, de sujar o mínimo possível, de nada ser ‘descartável’, e de oferecer uma circularidade, onde uma coisa pode nutrir a próxima, onde um sentimento de abundância, suficiência, interconectividade seja cultivado.
Às vezes isso também se materializa em gestos que podem estar fora do escopo do “mundo da arte” ou de uma exposição, como, por exemplo, na maneira como eu trabalho com os estudantes e mentorandos que tenho a oportunidade de acompanhar, dando elementos para que eles possam florescer em seu potencial, de forma autônoma e fazendo um trabalho que confia num tempo expandido. Ou, de forma mais prática, nas as escolhas que possibilitam fazer um trabalho que não gere lixo ou use materiais que agridem o meio ambiente.
A maioria das vezes são decisões e gestos que acontecem dentro de uma certa “invisibilidade”, que não ficam explícitas, mas eu também gosto de entender essas decisões como “desobediências capilares”* nas palavras da socióloga argentina Rita Segato. São pequenos gestos, mas que que se espalham, se polinizam, se multiplicam e tem a força de gerar mudança, ou impactar, na especificidades e necessidades de seus locais e comunidades.
Quando penso nesse nosso impacto, na nossa pegada, o que estamos deixando como legado, eu também fico questionando essa noção de ser um artista “solo”, ou de uma exposição “individual”. Será que não são termos que operam dentro dessa ordem/lógica das coisas que, criam a separação entre nós (e os seres ao nosso redor) e, no limite, andam destruíndo nossa capacidade de sonhar, de sermos seres criativos e da vida na terra?
E se a gente pudesse lembrar e ser “desobediente” o suficiente para evidenciar que nada, nem o respirar que nos mantém vivo, é um gesto solo?
Toda arte é sempre construída à partir de uma complexa rede de relações que inclui desde memórias infantis, professores que marcaram nossa trajetória, traumas e violências, cada partícula dos materiais presentes fisicamente na obra e o lugar de onde vieram, todas as pessoas que fizeram viável o trabalho, o solo do espaço onde está sendo exposto, os ancestrais que cuidaram do lugar ao longo dos anos antes da nossa chegada.
E eu acho que talvez porque eu sinta toda essa rede que segura o meu trabalho, o meu ser, eu esteja em constante diálogo para entender o quanto dele eu tenha que apresentar como “meu” ou como “minhas idéias”, fazendo grandes afirmações, ou delimitações.
E por aí que venho transformando, a minha forma de falar sobre as coisas, desconstruindo a linguagem que me foi ensinada nos meus anos de formação e que tem mais a ver com separação (de mundos, de seres, de matérias/disciplinas) e deixando que ela seja refeita dentro de uma linguagem seja incorporada, parte dessa rede interconectada, interdependente, implicada.
O lugar onde vivo e trabalho foi, de certa forma, inspirado por uma maneira de pensar em rede, baseada na interconexão. Trata-se de uma comunidade artística fundada por artistas e professores do Black Mountain College. Eles queriam criar um lugar onde artistas pudessem viver e trabalhar em relação com a natureza e uns com os outros. Consigo perceber como essa visão, a maneira como estruturaram o lugar, a arquitetura das casas e a experiência de viver em meio à floresta do Harriman State Park reverberam na minha prática, fortalecendo minha presença como participante implicada dentro dessa rede.
Não muito longe de casa, estou trabalhando em um projeto que é uma colaboração com outras três artistas onde trabalhamos de forma totalmente colaborativa em uma obra site-specific. Escolhemos, mesmo que não racionalmente ou sem precisar afirmar, trabalhar assim. É um trabalho que vem da escuta: do que guia e nos conecta ao trabalho de cada uma, do espaço onde estamos expondo e de cada material escolhido para compor a instalação (a grande maioria coletado ou feito com cuidado e tempo).
Talvez essa seja a minha forma de “pisar suavemente na terra”*, o chamado que o Chefe Seattle fez no final do século XIX ao governo dos Estados Unidos (e a todos que viriam depois a ocupar suas terras ancestrais) e que Ailton Krenak segue convocando em suas falas, séculos depois.
Que a gente possa seguir fazendo arte como forma de cuidar da força da criação, da força da vida, da força de cada ser e de nossa força coletiva!
*”pequenas infrações, deslizes e práticas cotidianas à margem da ordem estabelecida capazes de corroer hierarquias e desestabilizar estruturas de poder ao longo do tempo (especialmente o patriarcado e a colonialidade)”. A ideia aparece com destaque em Contra-pedagogías de la crueldad e é comentada em uma fala recente da Rita Segato no IMS-SP.
**“De certo que vocês vão tomar esse lugar e os seus filhos vão ocupar esse lugar. Ensina aos seus filhos a pisar suavemente sobre a terra. Se vocês continuarem no mesmo ritmo que estão seguindo, vocês vão produzir tantos detritos que, em algum tempo, vão sucumbir, vão morrer sobre esses detritos. Vocês vão morrer debaixo do seu vômito, debaixo de seus detritos.”
Tradução organizada por Ciclo Selvagem, no Caderno Selvagem “Carta Do Chefe Seattle Comentada Por Ailton Krenak”:
Você pode pesquisar mais sobre o trabalho de Bel Falleiros através de @bel.falleiros // belfalleiros.com.br
Fotos: Anita Goes


















