Rafael Plaisant

Rafael Plaisant é artista autodidata, atualmente vive e trabalha no Rio de Janeiro. Com uma prática que alterna entre aquarela e guache em papel de algodão, acrílica em tela e assemblages com materiais diversos, explora textura, movimento e composição dentro de uma estrutura escultural que faz referência a história da arte e a elementos arquitetônicos e ritualísticos multiculturais.

Foto: Marden Matos. Cortesia do artista.

Desde pequeno eu desenho e, desde pequeno, ouço a história de que minha mãe Alzira tinha abandonado a Escola de Belas Artes da UFRJ quando ficou grávida de mim. Mas ela continuou a produção artística em casa.  Lembro-me de um dia vê-la desenhando na cama: era uma vista de um casario colonial das ruas de pedra de Paraty. Havia enfeites na quina da casa e seu reflexo na rua alagada; ela fazia tudo em pontilhismo com caneta nanquim. Embora a cena que ela retratava não me dizer muito, o ato em si, a concentração e o empenho dela me impactaram para a vida.

Fui estudar arquitetura achando que iria desenhar pistas de skate e acabei frustrado por ter que estudar cálculo às 7h30 da manhã. Logo percebi que tinha escolhido a faculdade errada e que a que eu queria ficava no mesmo prédio. Em vez de pedir transferência para a Escola de Belas Artes, (a mesma que minha mãe havia abandonado 22 anos antes) acabei largando a faculdade e, por sugestão de um amigo, virei aprendiz num estúdio de tatuagem.

Na tatuagem, desenvolvi meu desenho, ampliei minhas referências e encontrei uma profissão que me levou a viajar pelo mundo. Em cada visita a exposições, a vontade de expandir minha prática aumentava. A linguagem da tatuagem foi, pessoalmente, ficando limitada, e comecei a pintar nas horas vagas, procurando expandir minha prática.

Quando o covid chegou, tive que fechar o estúdio de tatuagem e, em casa, redescobri diversos blocos de papel e tintas que vinha coletando em viagens ao longo do tempo. Nunca tinha tido tempo nem coragem de usá-los; eram papéis de excelente qualidade, caros, guardados para quando a “grande inspiração” chegasse! E no isolamento, período que para muitos foi paralisante, tive tempo para pintar.

Pintar em série, em volta de um tema, foi a maneira que encontrei de explorar os assuntos que me tocam a fundo. A repetição gera linguagem, que gera acúmulo, que leva ao esgotamento, que invariavelmente abre espaço para uma nova série. A série de pinturas abstratas feitas durante a pandemia se transformou na série “Repositórios” (série que organiza mitologias pessoais em estruturas que lembram gabinetes de curiosidades), que virou uma série de assemblagens, que me levou a querer me desprender do rigor na série “Ocasiões” e, mais recentemente, a voltar ao rigor na série “Entr’acte”.

Meu ateliê, que atualmente é a sala do meu apartamento em Botafogo, torna a prática rotineira e contínua; não existe hora certa para produzir. Antes de começar a pintar, eu corto o rolo de papel em tamanhos específicos, esguicho água para distensionar o papel e, com uma escovinha, espirro aquarela líquida para criar textura e me livrar do fundo branco. Enquanto o papel seca, faço alguns esboços no caderno para ter uma ideia inicial da composição, me servindo de norte, mas nunca sigo à risca o que foi esboçado.

O papel como suporte principal na minha prática vem dos tempos de tatuagem, tradicionalmente tatuadores usam aquarela ou guache sobre papel para pintar as “flash sheets”(desenhos de tatuagens pequenas que são ofertados para os clientes pelos tatuadores), como mencionei anteriormente haviam diversos blocos guardados. As pinturas acontecem por livre associação de imagens e pensamentos, sempre mantendo uma certa coerência na linguagem; muitos elementos se tornam recorrentes e novos vão sendo adicionados para tensionar o campo pictórico.

Em Dezembro desse ano (2026) participarei da feira Untitled Miami com um estande solo da Galeria High Noon.

Saiba mais sobre Rafael @plaisant_rafael// rafaelplaisant.com

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