Alinhavar /Por meio de pontos largos e provisórios, prender diferentes partes do tecido temporariamente, permitindo ajustar sua posição, testar o encaixe e organizar a composição antes da costura final/
“Existe sempre uma curiosidade em ver como determinadas imagens vão se comportar” Gabriel Pessoto em conversa do dia 20 de janeiro de 2026
Gabriel Pessoto, jardim, 2024. Tapeçaria de lã natural em estrutura de aço carbono. 84 x 14 cm, 120 x 14 cm e 90 x 14 cm. Tríptico.
Fotos: Estúdio em Obra. Cortesia do artista.
“Que as atuais máquinas informacionais e comunicacionais não se contentem em veicular conteúdos representativos, mas que concorram igualmente para a confecção de novos agenciamentos de enunciação” — Félix Guattari, Da produção de subjetividade, 1989.
“Insira a agulha pelo lado avesso, deixando assim o nó na parte de baixo do trabalho; segure a linha entre o polegar e o indicador da mão esquerda e enrole-a ao redor da agulha três ou quatro vezes, de acordo com o tamanho de nó desejado” – Maude Russel, The Maude Russell System of Garment Cutting, 1914
Considero as diversas artes — pintura, escultura, música, poesia, ficção, entre outras — como componentes de um vasto e frequentemente não reconhecido sistema técnico, essencial à reprodução das sociedades humanas, que chamarei de tecnologia do encantamento.
Alfred Gell, Art and Agency, 1998
“Me veio uma coisa da experiência de realizar uma peça dessas; eu tive que mobilizar uma série de habilidades, aprender a costurar, fazer alguns acabamentos, os materiais e o tempo para fazê-la; como é a modelagem? Como é a parte que não se vê? O que tem por trás? Existe a vontade, sim, de atingir uma imagem, mas, ao mesmo tempo, tem uma performance silenciosa enquanto eu estou costurando de fato um enxoval de casamento e me pergunto o que eu estou aprendendo durante a coreografia dessa prática” – Gabriel Pessoto em conversa do dia 20 de janeiro de 2026
Há um tempo vivi um episódio que enlaçou o meu contato com a obra de Gabriel Pessoto em certa cena. Em 2021, recebi a publicação Ambiente Moderno, que reúne trabalhos da série “Enxoval” realizados pelo artista entre 2019 e 2021. No ano seguinte, após o fim de um casamento e uma mudança de casa, fiz um lanche para a minha madrinha. Recebi como presente para o novo lar um conjunto de toalhas de rosto enfeitadas com uma bainha de tricô feita à mão por ela. A publicação de Pessoto, que na época ficava em cima da mesa de centro, se tornou parte do assunto do lanche ao ser confundida com uma revista de gráficos de bordado. Folheamos juntos, recolhendo certa graça transmitida através das frases votivas, desejantes e elogiosas que estampam as páginas: “durma muito bem”, “que beleza de cozinha”, “escolha a mais bonita”, etc.
Gabriel Pessoto, Ambiente Moderno, 2022. livro de artista, 24 páginas. 29 x 21 cm. Cortesia do artista.
Cortar o molde /Cortar as formas que cada parte da peça deverá assumir, delimitando as condições para que possam, mais adiante, ser reunidas em uma composição coerente/
Peça 1: Cena
O recorte pessoal acima delimita uma importante peça desse texto, a “cena”. O episódio deflagra como a relação com obras de arte não é isolada ou laboratorial, mas moldada pelo arredor, na qual dimensões espaciais, sensíveis, climáticas, etc., participam do encontro e interferem na sua repercussão. Neste acontecimento integrativo, se ensaiam cenas entre sujeitos e obras de arte, e delas derivam-se enredos, significados e intuições sobre os trabalhos.
A “cena” faz do episódio mais do que uma imagem, conferindo a ela um caráter gestual, transitivo e emanatório. Exige-se, assim, a dimensão do “acontecimento” para relatar e transmitir os agenciamentos que a cena incita. Esta, por ser transitiva, ultrapassa o regime do código, da programação fechada, desafiando a estaticidade, a previsibilidade e a rigidez da reprodução. Falar em “cena” ao abordar a imagem é uma estratégia para nos atentarmos à verve manifestante e encantada recorrentemente abafada por uma constante atenção conferida ao aspecto compulsivo, reprodutivo e massificante das imagens no contexto midiático contemporâneo. Portanto, convocar a verve transitiva da imagem através da cena orienta um modo ativo de lidar com esta reincidente palavra na poética do artista que, vale lembrar, graduou-se inicialmente em Cinema.
Gabriel Pessoto, flor da pele, 2022. Vídeo, cor, silencioso, 1′. Foto: Élcio Miazaki. Cortesia do artista.
Peça 2: Imagem operativa
O corte acima faz par com outra peça do texto, aquela que trata das operações agenciadas pelas imagens. Esta é uma virtude inerente às imagens que não apenas tornam algo visível, mas manifestam e operam um acontecimento. Delimitamos aqui o aspecto operativo da imagem, introduzido conceitualmente por autores como o artista/cineasta alemão Harun Farocki, para designar imagens que não se orientam por uma finalidade representativa, mas funcional. Tratam-se de imagens que não se destinam primordialmente à contemplação ou à produção de uma visão do mundo, mas à execução de uma tarefa, operando como instrumentos em processos técnicos e dispositivos de ação. Nesse sentido, não visam tornar algo visível, mas fazer algo acontecer.
Estas, dentro do seu potencial de promover, instruir e agenciar operações, comandos de orientação espacial, geração de QR Codes para embarque de passageiros, reconhecimentos de um rosto, são fortemente associadas a um universo técnico. Há, porém, no cerne da sua funcionalidade, a viabilização de um ato, uma ação que produz efeito a partir de sua existência. Partindo de tal operatividade não representativa, podemos retornar às imagens em geral nos perguntando por um potencial ampliado de manifestarem e produzirem efeitos que não se acomodam na malha real e visível já disposta da representação. Mesmo fora do universo técnico-operativo, haveria imagens capazes de apresentar, praticar e viabilizar conformações que não reincidem em referentes predispostos, mas realizam instruções sensíveis, solicitam e agenciam gestos na malha de produção subjetiva humana para realizarem seus propósitos?
Gabriel Pessoto, acessório 1 / handjob, 2024. Tapeçaria e costura em talagarça. Aprox. 33 x 18 x 7 cm. Fotos: Vicente Carcuchinski. Cortesia do artista.
Ao pensarmos a criação de imagens dentro do contexto das artes contemporâneas, podemos encontrar uma série de práticas dedicadas a se valer da imagem enquanto uma ferramenta de não reificação das representações hegemônicas sobre certos sujeitos, culturas, práticas afetivas e até mesmo definições sobre o passado. A atitude de “[…] produzir imagens que não remetem a nenhum real representado” é defendida por autores como Félix Guattari enquanto uma possível mobilização transformadora no campo de produção de subjetividade, talvez por justamente possibilitar-nos circunscrever os limitantes arranjos que organizam nossos imaginários e convocar rupturas dentro dos sistemas representativos vigentes, incitando a criação de outros referenciais e modelos de pensar e apresentar sujeitos, práticas e histórias.
Imagens que revisam e reimaginam vem assim se tornando ferramentas em um movimento de disputa narrativa por cadastrar e legitimar outras formas de olhar, lembrar e enquadrar os mundos à volta. Na obra cromos educativos, de 2024, Pessoto nos mostra o álbum de figurinhas “Brasil minha Pátria” utilizado como material didático durante a ditadura militar brasileira. Nas páginas abertas vemos o completar de uma narrativa de homenagem, desde figurinhas das caravelas de “descobrimento” até a série de primeiros presidentes e outros homens consagrados no período colonial e republicano do país. Será que tais imagens apenas nos mostram os bustos e feições? Apenas servem à ilustração/representação de uma narrativa histórica? Ou elas engendram, em um gesto colecionista, uma prática de filiação a essas imagens?
Certamente elas operam em dimensões sensíveis, em dinâmicas de reconhecimento sobre quem pode ser historicizado como herói e em tantos outros lugares de condicionamento e agenciamento da produção subjetiva, operando na manutenção de certo regime narrativo histórico dentro do enquadre de um simples artefato infantil. O que acontece, porém, se outras figurinhas passam a compor este álbum? Se desejarmos encontrar e produzir imagens dignas de uma leitura racializada e letrada a respeito da história brasileira, que álbum formaremos? E que sociedade e realidades se conformariam ao redor desta coleção? Como a utilizar um descosedor, ferramenta de costura que serve para desfazer pontos já inscritos e abrir novas casas para botões, Pessoto parece, nessa e em outras obras, abrir frentes para cadastro tanto dessas dúvidas quanto para a invenção e promulgação de narrativas concorrentes àquelas tornadas hegemônicas.
Superior esquerdo: Gabriel Pessoto, nova janela, 2024. Tapeçaria de lã natural em estrutura de aço carbono, 57,5 × 43 cm. Foto: Estúdio em Obra. Superior direito: Gabriel Pessoto, Uma blusa assim fica ainda mais romântica, 2024. Tapeçaria em moldura de aço carbono, 45 × 43,5 cm. Foto: Estúdio em Obra. Centro inferior: Gabriel Pessoto, A colcha que sempre agrada, 2022. Tapeçaria/bordado em lã sobre suporte de madeira, 100 × 146 × 180 cm.
Fotos: Ana Helena Lima. Cortesia do artista.
Peça 3: Encantamento
Se a imagem operativa incita ações e produz efeitos em sistemas técnicos, qual nome podemos dar às imagens que agem e agenciam dentro de redes sociais e afetivas? Para este texto, vamos nomeá-las como “imagens encantadoras”, nos valendo tanto do aspecto mágico que a palavra convoca, mas também da abordagem do “encantador” enquanto termo presente na reflexão sobre o ornamental e o decorativo, comuns a algumas investigações poéticas de Pessoto.
Retornando a Ambiente moderno, podemos ler abaixo de uma imagem a seguinte frase: “o encanto deste jogo de banheiro rendado está no alegre brilho das pedrarias”. Se ver “encantado” por um conjunto de peças, testemunhar certo charme ou feitiço por elas mobilizados em nós é compreender que objeto e sujeito se confundem e ali algo se encena, sou enquadrado pelo objeto que me encanta e me faz objeto de suas pretensões sensíveis. Somos brevemente sequestrados e feitos de refém pelos ornamentos, babados, encantos e decorações de certas imagens e objetos, e a exigência do resgate é o reconhecimento de certo poder inerente à tais imagens e artefatos, não apenas reconhecimento mas a disponibilidade para cair nos encantos, deixar-se agenciar por eles, desarranjar o imaginário.
Pensar no que nos encanta, o que pode hoje ser considerado “decorativo” e quais as funções operadas pelo ornamental na relação que temos com objetos e imagens, ajuda a compreender o encantamento dentro de uma gramática tecnológica material, sem recorrer aos aspectos transcendentais que essa palavra pode convocar. Vale lembrar que o decorativo, por vezes renegado ao supérfluo, não se resume apenas a uma adição estética, mas realiza através do objeto uma comunicação visual que promove emoções, influencia a atmosfera de um ambiente e cria uma narrativa visual que ressoa. Aqui o “encantador” se mostra tanto na gramática da decoração quanto em um potencial de regulação sensível das pessoas que com ele se encontram.
Para o antropólogo britânico Alfred Gell: “a tecnologia do encantamento é fundada no encantamento da tecnologia”. A frase parece destrinchar o modo de criação de imagens encantadoras. Tal qualidade não lhes é conferida pelo conteúdo que deflagram ou pelas formas que ilustram, mas através de certo encantamento na técnica de suas produções. Encantar a técnica, ensaiar modos encantados de fazer, de articular e agenciar as imagens, surgem para mim como slogans momentâneos para pensar a prática de Gabriel Pessoto, caminhando desde os ensaios audiovisuais até as suas práticas têxteis.
Viabilizar outros agenciamentos para imagens e materiais, alterando seus fluxos e destinações, pode já ser visto como prática em obras do início de sua carreira, como em fora, vídeo de 2016 no qual o artista edita uma mensagem gravada em uma secretária eletrônica encontrada no meio de entulhos. Montando o áudio junto a imagens autorais, ele confere a essa simples mensagem outros destinatários e narrativas alternativas de assimilação. Vale aqui retomar Alfred Gell para lembrar o encantamento justamente como uma eficácia própria aos objetos artísticos, capazes de agir sobre aqueles que os encontram, mobilizando relações, afetos e interpretações que não se deixam reduzir àquilo que a imagem representa.
Gabriel Pessoto, Fora, 2016. Vídeo, cor, som, 9’47”. Cortesia do artista.
Ampliando a escala de efeitos do encantador, observamos que emanam de imagens e objetos artísticos aspirações desejantes, propostas narrativas, sugestões sensíveis que incitam a conformação de cenas, momentos em que somos convocados por tais imagens/artefatos e nos quais aspectos sensíveis, inputs narrativos, propostas de pensamento e ação se movem e se transmitem. Haveria, por exemplo, em um enxoval, certo poder encantador que profetiza e manifesta um desejo nupcial ou um voto de felicidade conjugal, funcionando na lógica do amuleto, objeto ou item provido de encantamento que opera como uma tecnologia simbólica de eficácia e visa tornar algo real, viabilizar e garantir a existência de algo que ainda não existe ou não se conformou plenamente. O conjunto de banho de solteiro que ganhei da minha madrinha de alguma forma vestia uma realidade ainda não efetivada na minha vida, mas convocada a ser construída após um divórcio.
Ainda em Ambiente Moderno, encontramos outro exemplo da capacidade de imagens encantarem a realidade vigente antecipando nela transformações, rearranjos imaginários: o artista nos mostra uma colcha de cama masculina confeccionada inteiramente a partir de gravatas rosas. O deslocamento desses elementos tradicionalmente associados a códigos de formalidade e à certa performatividade masculina para o campo do enxoval doméstico produz um curto-circuito nas cadeias de significação que organizam gênero, uso e valor. Ao recombinar esses signos, Pessoto não apenas os reinscreve em outro contexto, mas ensaia uma torção nas lógicas que os estabilizam, abrindo a possibilidade de emergência de outros arranjos sensíveis e simbólicos e de outros sujeitos que em torno deles se produzem e se reconhecem. Assim, aquilo que poderia ser recusado ou repelido dentro de uma lógica normativa da masculinidade cisgênera torna-se, aqui, vetor de aproximação e fabulação, deslocando os regimes de reconhecimento e reinscrevendo o sensível em uma chave de variação.
Vale, para pensar também a própria linguagem enquanto passível de certo encantamento, relembrar as distinções feitas pelo filósofo britânico J. L. Austin entre enunciados constativos e performativos. Certos enunciados não descrevem o mundo, mas o instituem performativamente; pode-se pensar que determinadas imagens e materialidades operam segundo uma lógica semelhante. O bordado do enxoval, a manutenção de um trevo de quatro folhas na carteira ou mesmo quando se coloca um copo d’água para ser benzido em frente a uma TV que transmite a missa não funcionam apenas como gestos simbólicos isolados, mas como dispositivos performativos que produzem efeitos sociais concretos, mudam a compreensão sobre as coisas, atribuem a elas capacidades e poderes distintos.
Para fechar esta peça, retomo a escritora e instrutora de costura Maude Russell, citada no início deste ensaio. Em 1914, frente a um contexto territorial em que a costura ainda estava amplamente associada ao espaço doméstico feminino específico, Russell publica The Maude Russell System of Garment Cutting, um manual técnico que visava a profissionalização desta prática historicamente agenciada para a manutenção de um repertório doméstico e de privação da vida pública para certas mulheres. O trabalho, amplamente difundido, se revelou não apenas como um manual técnico, mas também social, ao passo que o livro se tornou um dispositivo de reconfiguração do imaginário feminino dentro do seu recorte territorial. Ao sistematizar a prática da costura e traduzi-la em uma linguagem ensinável, replicável e orientada à geração de renda, Russell abriu uma via de influência para que essa atividade fosse deslocada de um espaço doméstico frequentemente invisibilizado para um campo de profissionalização possível.
Nesse sentido, sua prática pode ser compreendida e situada como uma tecnologia que, ao organizar gestos e saberes, também reconfigurou regimes de representação em seu território de difusão e reorganizou sensibilidades e expectativas sobre o que é esperado e como podem ser imaginadas algumas questões de gênero. O livro como um objeto operou assim agenciamentos de transformação social, viabilizando uma realidade que ele manifestava e antecipava dentro de seus propósitos.
Gabriel Pessoto, Enquadramento, 2024. Tapeçaria em display de metal. 206 x 146,5 x 39 cm. Fotos: Filipe Berndt. Cortesia do artista.
Peça 4: Prompt
Muitas vezes, o trabalho de Pessoto surge após seguir um código do bordado que orienta as cores e a disposição de cada ponto para que se complete uma figura final; este código antecipa uma imagem invariável. Obras como Zoom (2022) ou Códigos/receitas (2024) mostram tais codificações e instruções que sustentam a imagem final. Tal lógica da construção codificada revela uma afinidade estrutural entre a pesquisa têxtil do artista e a edição e construção de imagens digitais, visto que estas últimas também se estruturam em certa codificação e, a partir dela, organizam-se em um conjunto ordenado de pixels.
No limite, explicita-se que apesar de atual e fortemente vinculada ao meio digital, a discussão sobre codificação, programação e a preocupação em torno do uso das linguagens de formatação de imagens e suas finalidades, também pode ser analógica e manual. A peça final que gostaríamos de recortar para este texto tenta deslizar do código para o prompt para pensar em outra importante terminologia e funcionalidade atrelada ao universo de criação de imagens na contemporaneidade.
O código nos instrui, através de um arranjo padronizado, a formalizar uma imagem nos moldes que desejamos. Nesse sentido, ele funciona como um gabarito ou molde base para que se atinja a imagem que se busca. Podemos aprender uma linguagem ou nos letrar em uma forma de codificação para conseguir manipular e conformar figuras em distintos suportes. Há, porém, hoje, com o ampliado uso das inteligências artificiais, uma outra entrada no campo da criação de imagens na qual o código, sua leitura ou letramento em sua linguagem encontram menor destaque, visto que, automatizados, eles se instrumentalizam facilmente a partir de um prompt. Este nos permite, a despeito do conhecimento do código, gerar imagens a partir de perguntas, comandos e instruções.
Pensar o prompt em vez do código é uma tentativa aqui similar a saltar da imagem para a cena, abrir o arranjo e a estrutura da imagem final para encontrar em sua origem essa valência da vontade e do desejo para que acarreta em sua existência, vontade essa comunicada a partir de um comando, um prompt.
Gabriel Pessoto, Nova Janela Anônima, 2024. Desenho sobre papel em moldura em acrílico, 32,5 x 87 cm. Fotos: Estúdio em Obra. Cortesia do artista.
Retomamos aqui a fala do artista: “Existe a vontade, sim, de atingir uma imagem, mas, ao mesmo tempo, tem uma performance silenciosa enquanto eu estou costurando”. Atingir uma imagem pode significar completar a sequência ordenada por um código para dar figurabilidade àquilo que antes era um arranjo de pontos, mas também pode nos levar a outra interpretação, aquela em que o verbo “atingir” remete a “atacar ou ferir”. Esta segunda interpretação traz o gesto para o cerne do trabalho, e não a imagem final. Como dar lugar a um desejo que não se acomoda em imagens já dispostas, um desejo que solicita um imaginário em revolução, o rompimento de certas imagens já sedimentadas para a inscrição de outras? Talvez o prompt seja uma forma de pensar esse quesito agressivo, ou seja, afetado, carregado de interesse e comprometido com um gesto a se transmitir e a ressoar, chamando a atenção para outros aspectos da obra de Pessoto.
Gabriel Pessoto, Motivo recorrente, 2024. Tapeçaria de lã natural em estrutura de metal. 33,5 x 125,5 x 23 cm. Fotos: Filipe Berndt. Cortesia do artista.
Costurar /Unir as partes por meio de pontos criando uma continuidade entre elementos/
Como se comporta uma imagem?
Neste ensaio, tentamos acompanhar este fio por onde o comportamento da imagem se coreografa e retorna ensaiando respostas em uma série de obras de Pessoto. Tal pergunta ecoou nas conversas com o artista e fixou-se como um ponto de constante retorno para pensar os desdobramentos de sua poética.
Eleger essa pergunta para costurar as partes acima se mostra como uma linha firme em diferentes planos. Perguntar-se pelo comportamento e não pela definição das imagens é convocar o aspecto dinâmico que nos interessa quando nos voltamos à noção de cena e acontecimento. Trata-se de indagar não pelo que é uma imagem, mas pelo que ela pode se tornar, ou seja, não desmembrá-la ponto a ponto em um código revelado, descrevendo suas qualidades para defini-la, mas indagar pelo que nela vive e se move, por esse pedido que ela faz ao mundo, como ecos de um prompt, resquícios de um desejo que não se encerram no enquadramento imaginado.
Vale lembrar aqui outra questão mobilizada em alguns trabalhos de Pessoto: a tonalidade pornográfica de algumas imagens. Na obra A flor singela (2020), o artista reconstrói em vídeo um padrão floral de bordado ponto-cruz, no qual cada ponto é preenchido por fragmentos de pornografia gay. Ele comenta que o trabalho e sua investigação buscam: “refletir sobre um imaginário popular de ideais de gênero, romance, sexualidade e desejo”. E completa: “O vídeo também é uma investigação formal, na qual me aproprio de estratégias tradicionais de composição de imagens do artesanato para construir uma nova narrativa em linguagem digital”.
A capacidade das imagens de comporem e moldarem imaginários populares, contribuírem para a construção de certos processos de subjetivação e inibição de outros, instruírem regimes sensíveis e de reconhecimento, não se formaliza apenas em uma escala macromolecular de estratificação, classificação e fixação de modelos, segmentos e referenciais, mas também a nível micromolecular, nas operações singulares e de fluxos singelos orgânicos que elas podem operar em nós. Aqui a imagem pornográfica pode também servir de exemplo: alterar o fluxo sanguíneo, oscilar brevemente a pressão, modificar a respiração, antecipar gestos, enfim, instruir o sensível, são mobilizações geridas pela imagem e que tornam irrevogável o aspecto cênico de acontecimento que certas imagens incitam. É este aspecto o protagonista da relação com as imagens, e não o ato de registrá-las ou contemplá-las.
Apesar da materialidade visual de algumas obras de arte, elas não se encerram em seus limites físicos. Faz parte de cada trabalho certa regência sensível e agenciamento cênico por elas movidos e transmitidos, como um tracejado de pontos bordados no tecido guarda e replica o ir e vir das mãos que os costuraram.
Gabriel Pessoto, a flor singela, 2020. bordado digital. Cortesia do artista.
Esta regência opera seus efeitos não só sobre os espectadores que vão de encontro ao trabalho, mas também sobre o próprio artista. O imperativo da cena sob a imagem se explicita na frase aqui já mobilizada, em que o processo de formação imagética da obra requer uma performance, pede a produção de um corpo, um tempo, um jeito de fazer com as mãos, de se sentar, de conviver com o material, de incorporar uma técnica. O trabalho nos trabalha.
A expectativa sobre a eficácia de uma obra, sua potência ou mesmo sua apreciação não reside necessariamente na reação imediata do público que testemunha os resultados obtidos a partir de sua apresentação e circulação. O processo de longa exposição a certas imagens, a disponibilidade de comportar as perguntas que elas nos dirigem, as rupturas que elas evocam no repertório e arranjo representativo vigente e os consecutivos agenciamentos que ela maquina parecem mostrar que esta verve manifestante da imagem se dá não ali onde ela mostra, mas onde ela recua, não assimila, requisita outra borda, adia seu desvelamento solicitando um outro mundo ou outras cenas para que se formalize.
A imagem pode assim reivindicar um futuro para que ela se execute, sonhar o que ainda não está ali; ela pode surgir para protocolar uma queixa aos imaginários vigentes e sugerir transgressões consistentes para o futuro do visível.
A imagem vive não no que mostra, mas no gesto que ela requisita para que possamos vê-la.
Desvirar /Inverter a peça depois que ela foi costurada pelo avesso. Tornar visível a estrutura interna do trabalho/
Por isso, talvez seja necessário diante de uma imagem revirá-la, olhar pelo verso, acompanhar os pontos que a sustentam como um caminho que coreografa os nossos olhos. É fora do foco, no oco da figura, que reside o poder de uma imagem realizar um upcycling no imaginário, rearranjar o passado, transgredir acordos imaginários da representação do presente, sugerir um futuro, filiar e evocar outras formas de abordar o mundo.
No desvirar de certas peças vejo este oco, espaço ausente que serve para ressoar ecos, máquina de transmitir chamados. Olho, por exemplo, para a obra Uma blusa assim fica ainda mais romântica ou para Blusão. Aqui gosto da palavra “ainda”, um advérbio de tempo que pode nomear a insistência em um presságio que ainda não se formalizou, mas persiste, esse tempo que aguarda um acontecer prestes a ecoar. Nestas duas obras, o que vemos é uma tapeçaria da visão aproximada destes blusões de inverno cuja costura forma correntes circulares. Toda a gramática de cores, a temperatura do tecido, as imagens evocadas pela estação do ano podem remeter a um acolhimento, a certo calor transmitido entre um e outro para se aquecer. Mas, para além do imediatamente visível, insiste em se mostrar para mim neste vão oco cadeias de estruturas genéticas, como fitas de DNA em processo de replicação.
Fotos: Estúdio em Obra. Cortesia do artista.
Essa aproximação não se dá apenas por analogia formal, pelas correntes dos blusões remeterem a fitas genéticas, mas por uma afinidade mais profunda: trata-se, em ambos os casos, de sistemas que carregam instruções para a produção de formas futuras. Assim como o DNA não é a vida em si, mas o conjunto de operações que a tornam possível, também essas imagens parecem conter menos uma figura estabilizada do que um programa sensível, uma matriz operativa capaz de engendrar outras cenas.
Nesse sentido, Pessoto poderia ser pensado menos como alguém que representa e codifica imagens e mais como quem manipula condições de aparecimento sensível, como um técnico ou um pesquisador que intervém nas regências que organizam o visível. Seu “laboratório” é atravessado por desvios, afetos e temporalidades espessas: trata-se de um campo onde o código é constantemente tensionado pelo gesto e onde o padrão é atravessado por variações desejantes. Cada sequência de pontos não é apenas uma reprodução prevista de um código, mas a tentativa de atualizar uma vontade de imagem que ainda não se estabilizou completamente. Como no prompt, trata-se de acionar um campo de possibilidades, de convocar, no processo de sua própria execução, uma imagem que ainda precisa ser inventada.
Arrematar /Por meio de pequenos nós ou pontos de segurança, fixar o fio ao término da costura garantindo um acabamento essencial e discreto/
Vamos chegando ao fim; o gesto se tranquiliza, reduz a velocidade com as mãos para que os pontos de arremate sejam dados sob o tecido. Na obra Veias, de 2015, nos vemos embarcados em um transporte rodoviário com o artista, que mira a câmera pela janela e nos leva a um passeio pela estrada. As imagens são concatenadas em câmera lenta, ali onde podemos encontrar o nó entre as grandes vias da cidade que nos faz crescer e as micro capilaridades sanguíneas que nos estruturam. Desacelerar a imagem, torná-la tátil, fazê-la perecível são gestos da costura de Pessoto.
Como quem precisa diminuir a velocidade de um vídeo para conseguir decorar a coreografia ou modificá-la. Lentificar a repetição para romper com o previsto e inserir certa mutabilidade dentro da expectativa amansada pelo semelhante. Se o trabalho faz o artista frequentar a partitura de um corpo costureiro, se as ferramentas de sua execução o levam a retomar cenas, marcações, semânticas e repertórios de outros tempos, assimilados a outros gêneros, vividos em espaços e dimensões políticas não mais vigentes, ele se transforma em certa máquina de edição temporal. Dela saem outras montagens, cujos fins ainda não foram noticiados.
Por fim, o verbo “comportar” admite dupla perspectiva; pode se referir ao “modo de conduzir-se de acordo com uma situação”, mas também à tentativa de conter em si e ser composto por algo que o excede. Uma imagem pode servir ao gerenciamento de comportamentos e à manutenção de valores negociados num sistema de representação vigente. Mas ela também pode nos interromper e fazer soluçar as respostas previstas. Uma imagem pode nos fazer ocos para que ela por nós se mova. Criar, abrigar e praticar tais imagens talvez seja uma das vias possíveis a uma revolução do imaginário, para que possamos cadastrar o futuro não como projeção linear do presente visível, saturado por um conjunto de previsões céticas e reiterativas, mas formar amostras reagentes de mundo, atualizar o repertório para abrir o futuro como campo ainda instável, onde outras vertentes imaginárias aguardam uma perecível realidade em feitura.
Gabriel Pessoto, permitir repetição, 2023/2024. tapeçaria em suporte de aço galvanizado. Aprox. 175 x 28 x 30 cm. Fotos: Estúdio em Obra. Cortesia do artista.
1. GUATTARI, Félix. (1989). Da produção de subjetividade. In PARENTE, André. (Org). imagem-máquina: a era das tecnologias do virtual. Rio de Janeiro: Editora 34, 2011, p. 177
2. RUSSELL, Maude. The Maude Russell System of Garment Cutting: Specially Adapted for Self-Instruction. London: 1914, p. 88
3. GELL, Alfred. “A tecnologia do encanto e o encanto da tecnologia”. Revista Concinnitas. Online: PPGARTES-UERJ. Ano 6, v. 1, n. 8, p. 52
4. GUATTARI, Félix. (1989). Da produção de subjetividade. In PARENTE, André. (Org). imagem-máquina: a era das tecnologias do virtual. Rio de Janeiro: Editora 34, 2011, p. 177.
5. GELL, Alfred. “A tecnologia do encanto e o encanto da tecnologia”. Revista Concinnitas. Online: PPGARTES-UERJ. Ano 6, v. 1, n. 8, p. 41
6. AUSTIN, J. L. Quando dizer é fazer: palavras e ação. Tradução: Danilo Marcondes de Souza Filho. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.
Gabriel Pessoto, bichinhos virtuais, 2023. tapeçaria e bordado digital em monitor de LED e estrutura de madeira. 71 x 93 x 10 cm. Fotos: Estúdio em Obra.
Lucas Alberto é um trabalhador transdisciplinar da cultura. Graduado em Artes (UFF), Psicologia (Famath) e licenciando em Filosofia (UFF), cursa atualmente doutorado no Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes (PPGCA-UFF), onde investiga os “modos críticos de fazer autobiográfico” na arte contemporânea brasileira em um campo ampliado de imbricação entre arte, literatura e psicanálise. Desde 2022 atua com pesquisa, produção e curadoria de exposições de arte. Publicou em 2025 o livro de poemas “frígidas certezas” pela editora Urutau.
Para saber mais sobre Lucas: @aubertor
Vistas da exposição Descanso de tela (2024) na Galeria Luciana Caravello em São Paulo. Fotos: Filipe Berndt. Cortesia do artista.
Gabriel Pessoto nasceu em 1993, em Jundiaí. Desde 2015, o artista visual reflete sobre o impacto da cultura visual para a construção de desejos. Com elementos do cotidiano, do artesanato à experiência online, a pesquisa aproxima mídias têxteis e eletrônicas. O trabalho já foi apresentado em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Berlim, Porto, Lisboa, Nova Iorque, Miami, Louisville, Moscou, Teerã, Łódź e outras.
Em 2020, foi premiado pela ArtConnect Magazine pelo projeto “trocando figurinhas” desenvolvido em parceria com Nicole Kouts. No ano seguinte, realizou a exposição “Ambiente Moderno” com curadoria de Gabriel Bogossian na Galeria da Fundação Ecarta (Porto Alegre, RS). Em 2022, foi um dos artistas selecionados para Temporada de Projetos do Paço das Artes com o projeto “Realidade Virtual” que contou com acompanhamento crítico de Pollyana Quintella.
Em 2024, integrou a exposição coletiva “Histórias LGBTQIA+” no MASP e apresentou a exposição individual “Descanso de tela” na Galeria Luciana Caravello (São Paulo, SP) com texto crítico de Renato Menezes. Em 2025, foi selecionado para a “18ª Trienal Internacional de Arte Têxtil” (Łódź, Polônia), exibiu a instalação “Blusão” no Massapê Projetos (São Paulo, SP), fez parte da coletiva “unoriginal genius” na Laundromat Art Space (Miami, EUA) e expôs duas séries de trabalhos realizados em dupla: “Fundo Infinito”, em parceria com Lucas Simões, no 25M Sala de Projetos (São Paulo, SP) e “Dossê trocando figurinhas”, em parceria com Nicole Kouts no Ateliê 397 (São Paulo, SP).
Integra os acervos da Presidência da República (DF), do Museu Nacional de Belas Artes (RJ), do Museu da Diversidade Sexual (SP), do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS) e do Museu de Arte de Ribeirão Preto (SP).
Para saber mais sobre o trabalho de Gabriel Pessoto: @gabrielpessoto // gabrielpessoto.com









