1000 Saguaros
Mudei de Nova York para Tucson, no Arizona, em 2021. Depois de anos vivendo em uma grande cidade, eu queria mais espaço e uma conexão mais próxima com a natureza. Eu sabia muito pouco sobre o Deserto de Sonora, sua biodiversidade ou as relações ecológicas que fazem dele um dos desertos mais singulares do mundo.
Como fotógrafo dedicado a questões sociais e ambientais, meu trabalho sempre esteve ligado à minha curiosidade pelo mundo natural e pelas relações entre as pessoas e os ambientes que habitam. Antes de 1000 Saguaros, eu já havia explorado questões ambientais e sociais por meio da fotografia e do documentário. No Brasil, trabalhei em projetos como Esperança Terena, voltado para uma comunidade indígena, e Ser Manguezal, um curta-metragem documental que dirigi e produzi sobre a relação entre as pessoas e os ecossistemas de manguezal. Minhas fotografias também acompanharam reportagens sobre recursos hídricos, direitos à terra e questões ambientais.
Essas experiências moldaram a maneira como abordo a fotografia, não apenas como uma forma de registrar aquilo que vejo, mas também como um meio de estimular a conscientização e a compreensão.
A mudança para Tucson me apresentou a um ambiente completamente diferente. Comecei a passar mais tempo explorando trilhas, observando plantas e animais e aprendendo sobre o Deserto de Sonora. Entre as muitas espécies, o cacto saguaro (Carnegiea gigantea) tornou-se objeto de um interesse particular e de uma verdadeira obsessão.
O saguaro talvez seja o símbolo mais reconhecível do sudoeste dos Estados Unidos. Sua silhueta aparece em anúncios, filmes, ilustrações e inúmeras representações do deserto. No entanto, apesar de sua familiaridade, percebi o quanto a maioria das pessoas — inclusive eu, naquela época — sabia pouco sobre a planta em si.
À medida que comecei a fotografar os saguaros, fui me interessando cada vez mais por sua individualidade. Alguns têm vários braços crescendo em diferentes direções, enquanto outros permanecem sem braços. Alguns carregam cicatrizes causadas pelo clima, por animais ou por outras condições ambientais. As formas refletem sua idade, as condições em que cresceram e suas histórias individuais. Não existem dois exatamente iguais.
Pouco depois de começar a fotografá-los, decidi documentar mil saguaros individualmente. Não me lembro exatamente quando defini esse número, mas lembro de pensar que mil fotografias apresentadas em conjunto teriam um impacto visual maior do que uma coleção menor. Era uma meta ambiciosa, e eu não sabia quanto tempo levaria para concluí-la.
Ao longo dos quatro anos seguintes, caminhei aproximadamente 200 milhas (320 quilômetros) por Tucson e pelas áreas ao redor do Deserto de Sonora, procurando e fotografando plantas individualmente.
Fotografei cada saguaro usando a mesma câmera, a mesma lente e a mesma linguagem visual. Essa consistência foi intencional. Eu queria dedicar a mesma atenção a cada planta, permitindo que as características individuais a diferenciassem das demais. O objetivo não era produzir um levantamento científico ou um inventário botânico, mas criar uma coleção fotográfica que incentivasse as pessoas a olhar com mais atenção para uma espécie que, de outra forma, poderia passar despercebida justamente por ser tão familiar.
O processo exigiu tempo e paciência. Caminhar tornou-se uma parte importante do trabalho, não apenas porque me permitia chegar a diferentes lugares, mas porque me dava a oportunidade de observar a paisagem em um ritmo mais lento. Passar tanto tempo ao ar livre também me tornou mais atento às relações ecológicas que existem ao redor dos saguaros.
Uma experiência importante em Tucson tem sido meu envolvimento com a comunidade botânica local, particularmente com a Tucson Cactus and Succulent Society. Com trabalho voluntário, participação em ações de resgate de plantas nativas e convivência com pessoas que possuem um amplo conhecimento sobre as plantas, a geologia e a ecologia da região, desenvolvi uma compreensão muito maior do ambiente ao meu redor.
Esses momentos fortaleceram uma preocupação que sempre esteve no centro do meu trabalho: a conservação.
Meus temas estão conectados por um interesse comum em compreender o mundo ao nosso redor e como a atividade humana afeta comunidades e ambientes naturais.
No Deserto de Sonora, testemunhei áreas de vegetação nativa sendo transformadas pelo desenvolvimento urbano. Participei, com o meu trabalho voluntário, de esforços para resgatar plantas de áreas destinadas à construção. Essas experiências me permitiram compreender de maneira mais direta os desafios enfrentados pela biodiversidade da região e a importância da proteção dos habitats nativos.
Os saguaros são apenas uma parte desse ecossistema complexo. O Deserto de Sonora abriga uma extraordinária diversidade de plantas e animais, muitos dependendo de relações ecológicas que se desenvolveram ao longo de milhares de anos. Compreender essas relações me deixou cada vez mais consciente de quanto ainda há para aprender sobre esse ambiente.
Para mim, a fotografia começa com a curiosidade. Sempre me interessei por temas que podem parecer comuns ou familiares, mas que revelam algo diferente quando observados com mais atenção. Acredito que a fotografia pode ajudar as pessoas a reconsiderar aquilo que já conhecem — ou acreditam conhecer — sobre determinado assunto.
Essa ideia é particularmente relevante para 1000 Saguaros. Uma única fotografia de um saguaro pode facilmente se tornar apenas mais uma representação do sudoeste dos Estados Unidos. Mas, quando mil indivíduos diferentes são reunidos, tenho a expectativa de que o observador comece a reconhecer a diversidade e a complexidade existentes dentro de uma única espécie.
As fotografias são apresentadas em preto e branco, permitindo que a atenção permaneça nas formas, texturas, estruturas e diferenças entre as plantas. Cada imagem representa um saguaro individual, fotografado como parte de uma coleção maior.
Em novembro de 2026, 1000 Saguaros será apresentado pela primeira vez em Williamsburg, Brooklyn, em uma exposição organizada pela Art in Brackets. Apresentar o projeto em Nova York, cidade onde vivi antes de me mudar para o Arizona, insere o trabalho em um contexto diferente e apresenta o Deserto de Sonora a um público que talvez tenha tido pouco contato direto com ele.
Depois de quatro anos caminhando, fotografando e aprendendo, vejo a coleção não apenas como mil fotografias, mas também como um registro da minha crescente familiaridade com o Deserto de Sonora.
Minha intenção não é dizer às pessoas o que pensar sobre essas plantas ou sobre o meio ambiente. Quero estimular a curiosidade, a observação e uma apreciação mais profunda do mundo natural.
O Deserto de Sonora é um ambiente vivo, complexo e em constante transformação. É também vulnerável às pressões da atividade humana. Espero que 1000 Saguaros possa contribuir, à sua maneira, para uma maior conscientização sobre biodiversidade e a importância de sua conservação.
A fotografia sempre foi, para mim, uma forma de compreender o mundo. Com 1000 Saguaros, espero poder, com a fotografia, incentivar outras pessoas a observar com mais atenção o ambiente ao seu redor.
Você pode saber mais sobre Eliseu aqui: @eliseucavalcante
Fotos: Eliseu Cavalcante
Retratos de Eliseu: Uelan Jardim Miranda










