In Studio: A Disciplina da Matéria e o Silêncio da Criação
No momento em que chego em meu ateliê, o caos de São Paulo permanece do lado de fora. É uma separação necessária. O silêncio é imprescindível para que minhas pinturas possam falar. Passei sete anos em um ateliê colaborativo e, recentemente, pude finalmente ter meu espaço pessoal.
A minha rotina, entretanto, não se alterou; chego por volta das dez da manhã, abro todas as portas e janelas para que a luz entre e o ar circule, por vezes acendo uma vela e queimo um incenso. Daí então posso iniciar os trabalhos do dia, mas não sem antes colocar uma melodia em piano para tocar nos fones de ouvido. As notas minimalistas de Ludovico Einaudi organizam meu pensamento, estabelecendo uma arquitetura invisível onde me sinto segura para trabalhar.
O meu ateliê atualmente fica em uma das vias mais movimentadas da Barra Funda. O fluxo constante de pedestres, o motor dos carros e caminhões, a música do bar, enfim, todas as interferências do mundo exterior não estão totalmente abafadas ao meu redor. Busco o silêncio, mas por vezes o ruído acaba por influenciar em minhas produções. Esses ruídos ou presenças, como prefiro chamar, sempre estão em minhas obras de alguma maneira.
A série Chorinho, por exemplo, recebeu esse nome justamente pelas modinhas que ouvia tocar nos bares enquanto passava as noites pintando no antigo ateliê em que trabalhava e que avizinhava um punhado de botecos. O som entrava sem pedir licença e, de alguma forma, ditava o ritmo da pincelada, transformando a repetição visual em uma forma de síncopa.
Eu tenho um processo de produção metódico. O rigor e a precisão são os pilares que balizam minhas produções, muito, talvez, por influência de minha formação acadêmica em Desenho Industrial. Entretanto, quando abro mão de gabaritos ou fórmulas pré-estabelecidas para produzir, abro espaço para que essas presenças se manifestem também nas obras.
O meu trabalho é extenuantemente repetitivo, mas em cada gesto do pincel sobre a tela existe a força da mão, o peso do braço e, por vezes, a falha, que sinaliza a presença humana por trás das camadas de linhas, traços e pontos multicoloridos que se sobrepõem. Essas sinalizações são extremamente importantes para mim. O gesto repetitivo que exerço por oito ou nove horas seguidas exige de mim uma presença quase meditativa; acho vital que essa presença seja perceptível para quem vê minhas pinturas também.
Uma outra lente para entender os meus processos de criação é a minha relação com as águas. Sou nadadora de águas abertas, de longas distâncias e frequentemente estou treinando na piscina. Ao observador externo, a natação não passa da repetição monótona da braçada, mas quem está dentro d’água sabe que nenhum movimento é igual ao anterior. A braçada responde à água, à temperatura e ao fôlego daquele segundo exato. Sem essa constância de força e ímpeto, o corpo não se move submerso.
Em minhas obras e em minha forma de encarar a vida esses gestos se fazem presentes o tempo todo: nas obras, as marcações na tela são como registros de performance. Cada marca ali carrega a intenção da mão e o peso do meu braço naquele instante. Pinto com o corpo inteiro e com a mente atenta. É uma arte de foco, resistência e fôlego. Aprendi que, para se manter à tona — seja no mar ou na carreira artística —, a consistência e a disciplina são fundamentais para alcançar os objetivos que busco.
Uma outra preocupação que tenho com minhas produções está nos materiais. Escolhi o linho puro como suporte principal das pinturas e em parte de meus trabalhos em bordado, que compartilham suportes telados, como a talagarça ou a tela de mosquiteiro. Porém, gosto de “ouvir” o que os materiais têm a dizer por si só; possuo obras realizadas sobre couro, juta, veludo e azulejos. Cada trama — ou a total ausência dela, na lisura da cerâmica industrial — conta uma história por si só, e estou sempre atenta para o que essas peças conversam com as cores que aplico sobre elas.
Também atento-me muito às estruturas. Ao longo dos anos que tenho trabalhado como artista visual, passei a preocupar-me com a resistência e a sobrevivência de minhas produções às ações do tempo. Passei a abrir mão dos chassis de madeira que empenam e se desgastam e incorporei os chassis de alumínio na estruturação das peças de maior tamanho. Eles garantem que a tensão do tecido se mantenha perfeita por décadas, sem falar que são consideravelmente mais leves que os de madeira.
Essa busca pelo “melhor” é inegociável e se estende para além do ateliê. Sempre que posso viajo atrás dessa excelência e de inspiração. Minhas viagens são expedições sensoriais. Fiz uma imersão nas Ilhas Canárias, onde a energia vulcânica e a luz crua que bate nas areias negras revelaram cores inéditas para mim. Voltei de lá impregnada, tentando traduzir na tinta aquela sensação de terra viva.
Do Japão, trouxe rolos de linhas de qualidade única, mas também lições silenciosas sobre o Kintsugi e o Ikebana, aprendendo a valorizar a cicatriz e o espaço negativo entre as formas.
Essa permeabilidade entre o sofisticado e o cru guia minhas escolhas. Na série Mímese, brinco com a camuflagem, lembrando gabaritos de ponto-cruz que enganam o olho. Já em Jardim, tensiono a criação natural com a técnica, usando hachuras industriais para organizar o caos da natureza através da geometria, sem matar sua essência.
Muitas vezes, o meio artístico espera que o artista seja uma figura etérea, desapegada, quase mártir. Eu sou o oposto disso. Sou pragmática. Sou uma mulher de convicções fortes. Quero que meu trabalho seja visto e valorizado. Tenho ambição, e vejo a ambição como uma virtude, como o combustível que me faz acordar cedo e buscar sempre a melhor técnica, o melhor acabamento
No entanto, toda essa força externa protege um núcleo de extrema sensibilidade. O ateliê é o lugar onde essas facetas se encontram. É onde a mulher forte que faz o que quer se permite a delicadeza minuciosa do ponto, a paciência da linha, a vulnerabilidade da criação. Não desligo fácil. Penso no trabalho o tempo todo — a não ser quando estou cercada de gente, celebrando a vida, rindo alto. Mas, no fundo, tudo volta para o ateliê. Criar, para mim, é uma forma de estar no mundo com intensidade. É unir a arte e o mar pelo amor incondicional à correnteza, e pela coragem de mergulhar nela sem medo.
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Fotos: Anita Goes













