Impacto na Superfície: A Arte de Peter Fulop por Hayley Ferber

Para Peter Fulop, o fazer é um ato de descoberta. Embora a cerâmica permaneça no centro de sua prática, o trabalho escultórico de Fulop há muito ultrapassou os limites tradicionais da olaria. Argila, madeira, metal, papel, som e outros materiais tornam-se os meios em que ele investiga gesto, energia, memória e a condição humana. Suas esculturas preservam uma consciência do recipiente e das antigas tecnologias do fazer, mas funcionam cada vez mais como registros de ações, e não como objetos utilitários.

O trabalho de Fulop talvez possa ser melhor compreendido como uma negociação contínua entre o que é aprendido e o que se revela no próprio momento da criação. Sua abordagem foi moldada por décadas de aprendizado na Hungria, Irlanda, Japão, China, Coreia e Índia, com um interesse pela tradição que não é nostálgico. Em vez disso, trata a tradição como uma matriz viva de conhecimento — algo em que se pode entrar, questionar e, por fim, transformar. No centro dessa evolução estão os vestígios do gesto.

Peter Fulop, Reverie Realms, Standard Space, Sharon, Connecticut, 2025. Vista da instalação. Cortesia de Theodore G. Coulombe e Standard Space.

A formação inicial de Fulop na Hungria esteve profundamente enraizada nas tradições da olaria europeia. Estudou em Hódmezővásárhely, um centro histórico da produção cerâmica húngara, onde entrou em contato com uma cultura do fazer fundamentada no trabalho manual, nos materiais locais, na queima a lenha e em gerações de conhecimento acumulado. A argila era extraída, preparada, moldada, esmaltada e queimada à mão. O torno não era simplesmente uma ferramenta, mas um elo com uma antiga linhagem do fazer.

Essa história permanece visível no trabalho de Fulop. Cilindros, recipientes, elementos torneados e formas arredondadas continuam fornecendo uma base estrutural para suas esculturas. No entanto, o recipiente raramente é o destino final. Fulop pode começar no torno e, em seguida, desmontar a lógica do recipiente — cortando, desbastando, comprimindo, montando ou expandindo seus componentes em formas escultóricas. O torno torna-se um meio de gerar forma e não só de definir função. Essa mudança reflete uma transformação decisiva em sua prática.

Peter Fulop, Shigaraki, Japão, 2007. Cortesia do artista.

A cultura tradicional da olaria na qual Fulop se formou existia em tensão com a industrialização. A introdução do plástico, do alumínio e da produção industrial reduziu a necessidade prática da cerâmica feita à mão, enquanto as formas tradicionais se tornavam, cada vez mais, objetos decorativos. Essa mudança levou Fulop a investigar o que permanecia essencial dentro da prática, conduzindo-o, por fim, rumo à abstração.

Uma transformação decisiva ocorreu a partir dos encontros de Fulop com a arte de vanguarda japonesa, como a obra de Isamu Noguchi e, particularmente, por meio de sua relação com o professor Ryoji Koie. Fulop posteriormente estudou e viveu com Koie no Japão, em um período de aprendizado que o imergiu não apenas na técnica, mas em uma concepção completamente diferente de como um objeto cerâmico poderia ser. A prática de Koie era informada pela vanguarda japonesa e enfatizava a experimentação, o gesto, o processo e a relação entre ação e material. Essa experiência permitiu que Fulop reconsiderasse os pressupostos incorporados à sua formação europeia.

Não vai em busca da perfeição geométrica ou de uma forma ideal predeterminada, mas passou a se interessar pelo potencial expressivo da imperfeição, do movimento e da imediaticidade. O objeto poderia se tornar o vestígio de uma ação. Uma marca poderia conter a energia da mão que a produziu. A superfície poderia registrar pressão, velocidade, hesitação, impacto ou liberação. Essa ideia continua sendo fundamental para a prática de Fulop hoje. Suas esculturas não são meramente objetos moldados; são manifestações de estados físicos e psicológicos.

Peter Fulop, Varadi-Fulop, KAPOW, Nova York, 2024. Cortesia de Brigitta Varadi.

Fulop descreve seu processo como improvisacional, permitindo que as ideias surjam por meio do envolvimento direto com o espaço, o material e o ambiente, e não ficar exclusivamente na dependência de desenhos preparatórios ou formas predeterminadas. Essa imediaticidade é particularmente evidente em suas superfícies. Pinceladas, incisões, impressões, abrasões e áreas de compressão registram o movimento do corpo do artista. A escultura finalizada funciona, portanto, quase como uma performance congelada.

O uso da argila por Fulop é fundamentalmente físico. Ele não procura ocultar a transformação do material nem apagar os vestígios de sua manipulação. Ao contrário, expõe o diálogo entre sua ação e a resistência do material. Em algumas obras, a superfície é contida e quase monocromática, permitindo que a forma e o gesto assumam o peso visual. Em outras, o esmalte torna-se um participante ativo, reagindo ao fogo e produzindo superfícies que parecem metálicas, atmosféricas ou geológicas.

Peter Fulop, Celestial, Reverie Realms, Standard Space, Sharon, Connecticut, 2025. Cortesia de Theodore G. Coulombe e Standard Space.

A expansão de Fulop para a madeira e o metal aprofunda essa investigação, ao invés de afastá-lo da cerâmica. A madeira é, ao mesmo tempo, material e metáfora. Literalmente, alimenta o forno que transforma a argila em cerâmica. Conceitualmente, conecta o trabalho à vegetação, ao crescimento, à decomposição e aos ciclos e através deles a matéria orgânica retorna à terra. Argila e madeira, portanto, ocupam diferentes  pontos de um mesmo ciclo. A madeira emerge da terra como matéria viva e, eventualmente, se decompõe, retornando ao solo. A argila começa como terra, é extraída e moldada e, por meio da queima, transforma-se em algo fundamentalmente diferente — uma transformação efetivamente permanente.

A atenção de Fulop a essas relações confere ao seu trabalho uma dimensão geológica e ecológica. Trabalhar com argila significa envolver-se com um material que já atravessou imensos ciclos de formação e transformação. O metal introduz outro tipo de resistência. Enquanto a argila cede à pressão, o metal pode exigir corte, impacto, dobra ou incisão. Nos trabalhos de Fulop com chapas metálicas, a ação pode ser imediata e agressiva. A marca é criada pelo impacto, e o esforço físico do artista permanece visível.

A ação acontece antes de ser plenamente compreendida; a reflexão vem depois. Fulop analisa o trabalho após o gesto ter ocorrido, em vez de determinar inteiramente seu significado de antemão — uma distinção crucial em sua prática. O inconsciente não é ilustrado; ele é revelado por meio da ação. Central à compreensão de Fulop sobre o fazer está a ideia de que o trabalho não é imposto à argila, mas negociado com ela.

Peter Fulop, The Aesthetics of Impact, Chashama, Nova York, 2021. Vista da instalação. Cortesia do artista.

O interesse de Fulop pelo som estende essa ideia de gesto a outro registro sensorial. Ele aborda o som como vibração, sugerindo que formas de energia existem independentemente de serem visíveis. Seu trabalho sonoro surge desse interesse em traduzir o movimento invisível em uma forma perceptível. A mão golpeando a argila produz uma vibração. Um pincel arrastado sobre uma superfície cria fricção. Um forno transforma a matéria por meio do calor. Uma chapa de metal responde ao impacto com som. Cada ação gera energia, e cada material registra essa energia de maneira diferente. Nesse sentido, as esculturas de Fulop podem ser entendidas como registros visuais de vibração: elas preservam algo que, de outra forma, desapareceria.

Peter Fulop, FULE Museum, China, 2011. Cortesia de Andrew Standen-Raz.

A trajetória internacional da carreira de Fulop é significativa não apenas pelo número de países onde trabalhou, mas também pela maneira como as viagens funcionaram como uma forma de educação artística. Ele trabalhou com porcelana na China, participou de residências no Japão, estudou em um monastério budista na Coreia e retornou repetidamente a culturas cujas tradições cerâmicas, inicialmente, pareciam muito diferentes da sua. Seu profundo respeito pelos mestres, pelos materiais e pelo conhecimento herdado deu origem a uma prática que trata o fazer quase como uma disciplina espiritual. Cada nova técnica abre uma nova questão; cada resposta produz outra possibilidade. A trajetória da olaria húngara à cerâmica de vanguarda japonesa, portanto, não representa a rejeição de uma tradição em favor de outra. Trata-se de uma expansão do que a própria tradição pode significar.

Essa capacidade de sustentar ideias contraditórias é um aspecto particularmente instigante do trabalho de Fulop. As esculturas têm suas raízes na olaria, mas resistem à funcionalidade. Emergem da tradição, mas respondem ao momento contemporâneo; são cuidadosamente construídas, mas acolhem a improvisação; são objetos físicos que buscam comunicar estados invisíveis de energia. Estão profundamente conectadas a histórias culturais específicas, ao mesmo tempo que procuram alcançar algo universal.

Suas colaborações refletem uma filosofia semelhante. Trabalhando com outros artistas, entre eles sua parceira Brigitta Varadi, artista visual com uma prática que se desenvolve principalmente com a lã, Fulop construiu uma compreensão cada vez mais fluida dos materiais e da autoria. Anos trabalhando lado a lado permitiram que as práticas se tornassem permeáveis — a ponto de cada um começar a pensar por meio dos materiais e métodos do outro. A distinção entre linguagens artísticas individuais torna-se menos importante que o que pode surgir de sua interseção.

Peter Fulop & Brigita Varadi, Reverie Realms at Standard Space, Sharon, CT, 2025. Courtesy of Theodore G. Coulombe and Standard Space. 

Ao longo de seu processo, Fulop permanece atento ao fato de que os materiais possuem suas próprias histórias, limitações e possibilidades. Seu papel não é simplesmente controlá-los, mas entrar em diálogo com eles. O resultado é um corpo de trabalho que parece, simultaneamente, ancestral e contemporâneo.

Fulop passou décadas seguindo a argila — das tradições da olaria húngara às paisagens experimentais da Ásia e, posteriormente, a uma prática escultórica cada vez mais expansiva. O que descobriu ao longo desse percurso não foi uma única linguagem estética, mas uma maneira de trabalhar: permanecer aberto ao material, confiar no momento e permitir que o ato físico de fazer revele aquilo que nem sempre pode ser conhecido de antemão. Suas esculturas, portanto, não são simplesmente objetos. São vestígios de encontros — entre o artista e o material, entre tradição e experimentação, entre controle e entrega e, por fim, entre o mundo visível e as forças invisíveis que o moldam.

Peter Fulop e Brigitta Varadi, Material Resilience, earshot.nyc, Nova York, 2026. Cortesia de Flaneurshan.studio.

Hayley Ferber é curadora independente, educadora e artista radicada no Brooklyn, com uma atuação profissional dedicada ao apoio a uma comunidade criativa de artistas multidisciplinares. Realizou a curadoria de mais de 20 exposições para instituições e espaços como Westbeth Gallery, BronxArtSpace, 440 Gallery, Residency Unlimited, All Street Gallery, Lichtundfire, Equity Gallery e o Consulado-Geral do Brasil em Nova York, entre outros. Seus textos foram publicados na Art Spiel, Art Dialogues e USA Art News. Hayley possui mestrado em Ensino de Arte e Design pela RISD e bacharelado em Studio Art pela NYU.

Peter Fulop, Material Resilience, earshot.nyc., Nova York, 2026. Cortesia de Flaneurshan.studio.

Peter Fulop é um artista multidisciplinar, curador e educador com uma prática que abrange cerâmica, escultura, instalação e projetos colaborativos. Com formação inicial em cerâmica em Hódmezővásárhely, Hungria, Fulop estabeleceu seu ateliê na Irlanda em 2001 e mudou-se para os Estados Unidos em 2018. Sua prática internacional foi moldada por extensos períodos de estudo e residências no Reino Unido, China, Coreia, Japão, Irlanda e Estados Unidos. No Japão, viveu e estudou com o renomado ceramista Koie Ryoji em sua residência, uma experiência imersiva que exerceu uma importante influência sobre sua prática artística.

Fulop foi Windgate Fellow na Archie Bray Foundation for the Ceramic Arts, em Helena, Montana, e participou de diversas residências artísticas internacionais. Seu trabalho foi amplamente exibido em museus e galerias, incluindo Katonah Museum of Art, Bronx Art Space, Wassaic Project, Farmleigh Gallery, National Craft Gallery of Ireland, Mungyeong Ceramic Museum, Gangjin Celadon Museum e Shigaraki Ceramic Cultural Park.

Seu trabalho integra diversas coleções públicas, incluindo Archie Bray Foundation, National Museum of Ireland, Ulster Museum, Mungyeong Ceramic Museum, Gangjin Celadon Museum, Shigaraki Ceramic Cultural Park e a coleção IWCAT, no Japão. Paralelamente à prática de ateliê, Fulop tem realizado curadorias de exposições e desenvolvido projetos de arte pública e comunitária internacionalmente. Em 2027, apresentará uma exposição individual na KAPOW Gallery, em Nova York.

Imagem abre: Peter Fulop, NOBU, Leitrim Sculpture Center, 2016. Cortesia de Keith Nolan.

 
 
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