Embora a costura e os têxteis estivessem profundamente ligados à sua história familiar e à ancestralidade aimara, Apaza logo percebeu que esses tecidos também carregam narrativas de silêncio, violência e poder. Arequipa é a segunda cidade do Peru com os maiores índices de violência doméstica, com quase 77% das vítimas sendo mulheres. A transmissão da tradição de uma geração para outra não é homogênea nem um presente embrulhado de forma simples e unilateral. Quando Apaza herdou a máquina de costura de sua mãe, ela a viu como uma oportunidade de romper o silêncio — de costurar como uma nova forma de conhecimento e crítica social.
Nereida Apaza Mamani, Silencio. Instalação de uniformes escolares, 400 × 100 × 50 cm. Vista da exposição “Escutar com as mãos”, ICPNA, Lima, 2024.
Foto: Juan Pablo Murrugarra. Cortesia da artista.
“El bordado es mi lengua materna” [“O bordado é a minha língua materna”] – Nereida Apaza Mamani
Na Escuela Nacional de Arte Carlos Baca Flor, em Arequipa, Nereida não tinha recursos financeiros para comprar o conjunto clássico de materiais de pintura exigidos para os trabalhos acadêmicos. O fio surgiu, então, como solução — não apenas por ser um material mais acessível em sua própria casa, mas também pelo profundo significado cultural. Ela começou a tecer telas, e logo nasceram os cuadernos.
Silêncio (Ação Poética), de Nereida Apaza Mamani, 2013, Praça Campo Redondo, San Lázaro, Arequipa, é uma intervenção poética silenciosa na qual poemas são bordados no espaço público junto a uma antiga árvore de molle. Cortesia da artista.
Passou a costurar página após página de cadernos escolares, que acabaram se tornando seus livros de artista. As capas são familiares a muitos peruanos, pois fazem parte do modelo padrão utilizado no sistema nacional de ensino. Apaza explica: “Sinto que, através do caderno, é possível expressar tantas coisas: uma crítica ao sistema educacional, uma crítica à sociedade ou simplesmente o prazer de viver. Rabiscar no meu caderno é algo que hoje posso fazer livremente sobre o tecido, sem ser punida por isso.”
Em Cantos Domésticos, ela questiona a educação recebida pelas mulheres no Peru — uma formação muitas vezes baseada na submissão e na passividade. Para ela, a prática artística está profundamente entrelaçada com o ativismo político. Cantos Domésticos assume a forma de um caderno de poemas e exercícios, concebido como tarefas escolares que investigam palavras e seus significados, versos e imagens.
Nereida Apaza Mamani, detalhes do Cantos Domésticos, 2020. Serigrafia e bordado sobre tecido, livro de artista. Cortesia da artista.
A dualidade semântica da palavra “doméstico” é fundamental para compreender o trabalho: doméstico como aquilo que pertence à casa, mas também como o ato de domesticar — adaptar algo à força, ao controle humano. Com atenção constante ao feminicídio e à violência doméstica, Nereida costura possibilidades de existência em um espaço-caderno que se torna simultaneamente lugar de protesto e de pensamento coletivo, onde experiências compartilhadas se transformam em resistência.
Em 2019, Nereida participou de uma residência artística no Museu Britânico, onde foi nomeada a primeira artista residente do Santo Domingo Centre of Excellence for Latin American Research (SDCELAR). Como parte da residência, trabalhou com a coleção peruana do museu e produziu novas obras posteriormente incorporadas ao acervo do Museu Britânico.
Em diálogo com a investigação histórica presente em sua prática, alguns dos objetos trabalhados representavam heróis nacionais ligados à independência do Peru. Um desses objetos foram os peitorais (bibs) de uma dança tradicional peruana: as negrerías. As danças carregam significados múltiplos. Originárias das comunidades afro-peruanas, simbolizam tanto a resistência ao domínio colonial quanto a emancipação da escravidão. Apropriadas posteriormente por comunidades quéchuas e aimaras, tornaram-se um gesto de reimaginação da história cultural. No entanto, o trabalho de Apaza aborda as complexas questões do Peru ao reinterpretar o conceito de negrería. Geralmente confeccionados com bordados coloridos, os peitorais apresentam narrativas celebratórias da independência do país.
Nereida Apaza Mamani, Peitorais da coleção de Negrerías do Museu Britânico, 2019. Cortesia dos Trustees do Museu Britânico.
Os retratos históricos bordados funcionam como emblemas comemorativos, exaltando valores como bravura e luta pela liberdade. Nesse processo, algumas existências são apagadas, sustentando uma narrativa unívoca sobre o que esses peitorais mostram: homens brancos, militares e símbolos de prosperidade nacional.
Como gesto de subversão, Nereida cria Mensagem Presidencial, um peitoral que carrega palavras do historiador Jorge Basadre, nas quais o país é visto longe de uma visão totalizante:
“Aqueles que se preocupam apenas com o passado ignoram que o Peru — o Peru real — ainda é um problema. Aqueles que caem no amargor e no pessimismo ignoram que o Peru ainda é uma possibilidade.” Ao reverter a linguagem visual presente no escudo da bandeira, a obra critica a celebração nacional, reconhecendo suas potencialidades sem apagar os conflitos.
Nereida Apaza Mamani, 2019. Cortesia dos Trustees do Museu Britânico.
O peitoral encarna contradições, nas quais as palavras que unem problema e possibilidade carregam nas costas a palavra mañana (amanhã). O artista Salazar (1981) utiliza mañana para ilustrar o adiamento constante das transformações no Peru. Ao empregar as cores da bandeira peruana, Mamani lhes atribui novos significados políticos: o branco como símbolo de paz e o vermelho como o sangue que escreveu a história do país — tanto nas batalhas e na violência da colonização quanto em suas expressões contemporâneas, entre elas a violência policial como prática de Estado.
Confeccionado em tocuyo (calico), o peitoral faz referência a um material comumente utilizado em museus para envolver e proteger têxteis em reserva técnica. O próprio material funciona como comentário crítico sobre práticas de ocultamento museológico. O tocuyo representa uma dinâmica de poder: não apenas um invólucro para artefatos, mas uma metáfora para como certas narrativas são “embrulhadas” e controladas, enquanto outras permanecem invisibilizadas. Ao utilizar esse material, Apaza evidencia camadas de invisibilidade e silêncio — conceitos presentes tanto conceitual quanto fisicamente no museu. O trabalho de Apaza não apenas oferece uma leitura multifacetada da história peruana, como também desafia a narrativa dominante que oculta grande parte de sua complexidade. Ao ser convidada a pensar a partir das coleções e com elas, tornou-se possível encarar a sobrevivência em toda a sua densidade — no sangue derramado e pulsante. Hoje, sua obra integra a Wellcome Gallery do Museu Britânico.
Em 2024, Nereida expandiu sua prática coletiva e retornou ao museu com novas negrerías, dançando junto ao coletivo Baila Perú em uma performance que ecoava os parangolés de Hélio Oiticica, em tensão com a arquitetura e os discursos institucionais do Museu Britânico. Ao convidar existências historicamente negligenciadas a dançar, em uma coreografia que abriga gestos de pertencimento e exclusão, o encontro entre essas mulheres reflete as múltiplas formas pelas quais a história do colonialismo, da violência e das mulheres pode coreografar futuros possíveis e dar origem a novas narrativas.
Nereida Apaza Mamani, performance com Baila Perú, British Museum, 2024. Foto: Amanda Dourador. Cortesia da artista.
Por meio do bordado, Apaza desenvolveu o que pode ser compreendido como um projeto de memória. Ao dialogar com objetos históricos ligados à sua ancestralidade, refletiu sobre sua própria experiência de estar longe de casa, em uma cidade onde a crueldade e a xenofobia têm se normalizado nas políticas públicas. Durante esse período, criou seu próprio mapa de Londres. O livro London A–Z reúne poemas escritos por Apaza durante sua estadia, bordados em páginas feitas com materiais que remetem aos utilizados na reserva técnica de têxteis do Museu Britânico.
Nereida Apaza Mamani, London A-Z, 2019. Cortesia dos Trustees do Museu Britânico.
“Muitos de nós que migramos — eu incluída, já que minha família também é migrante — vivemos em comunidades onde, por meio dessas práticas, criamos um senso coletivo de pertencimento. Essas expressões comunicam crenças, desejos e desafios. Mesmo que continuem na cidade de forma limitada, elas seguem sendo parte de quem somos. Se convido alguém para dançar aqui, para uma atividade cultural onde vamos nos mover juntos, as pessoas vêm. Elas têm a chance de se conectar e fazer parte de uma comunidade.”
A arte de Nereida reforça que enfrentar os legados coloniais herdados nos sistemas educacionais, nas línguas, nos territórios e nos estigmas de gênero é, de fato, um caminho para construir um futuro melhor. Embora algumas críticas possam surgir diante de obras que vocalizam sofrimento e injustiça — vistas por vezes como pessimistas — o trabalho de Nereida demonstra o oposto: é justamente ao enfrentar esses temas com coragem que se torna possível encará-los, elaborá-los e atravessá-los dançando — de preferência, juntas.
Em uma conversa recente, discutimos suas performances e refletimos sobre o lugar da *decolonialidade fora de nossos próprios países: o que podemos desaprender com essas tradições e como criar sistemas artísticos alternativos. Concluímos este texto no mesmo espírito da conversa e da despedida de Nereida: “Te mando un gran abrazo desde el sur” [“Te mando um grande abraço desde o Sul.]”
Nereida Apaza Mamani, 2019. Cortesia dos Trustees do Museu Britânico.
Giovanna Querido é escritora e possui mestrado em Administração das Artes pela Columbia University. Natural de São Paulo, vive e trabalha em Nova York. Atua como Assistente Curatorial do Pavilhão do Brasil na 61ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza [2026] e da 39ª Panorama da Arte Brasileira: After It’s All Said, no Museu de Arte Moderna de São Paulo [MAM].
Amanda Dourador [Brasil] é curadora e escritora baseada em Londres. Possui mestrado em Estudos Museológicos pela UCL, onde sua pesquisa foi premiada com o Museum Studies Prize e o Institute of Archaeology Master’s Prize. Atualmente trabalha entre a Tate Modern e a National Galleries of Scotland, atuando com exposições itinerantes no Reino Unido.
Nereida Apaza Mamani, Escrito Está, 2021. Bordado sobre tecido de tocuyo. Cortesia do Museu da Memória ANFASEP.
Nereida Apaza Mamani é artista visual cuja prática abrange pintura, gravura, animação em stop motion, livros de artista, instalação, bordado e processos têxteis. Seu trabalho integra diversas materialidades e mídias para abordar questões políticas e culturais contemporâneas como gênero, identidade e cidadania, utilizando uma linguagem poética para criticar e subverter normas sociais.
Estudou na Escuela Superior Pública de Arte Carlos Baca Flor, em Arequipa, e no Instituto Superior Tecnológico Pedro P. Díaz.
Exposições solo inclue Listening with the Hands [ICPNA–San Miguel, Lima, 2024]; Poetics – Imagining the World [Hay Festival, Arequipa, 2023]; The Existence of Us [Galería Del Paseo, Lima, 2022]; The Fire of Children [Lugar de la Memoria, la Tolerancia y la Inclusión Social, Lima, 2021]; Patria – Artist’s Books [www.cuadernospatria.com, 2021]; The Light of Darkness [Galería Del Paseo, Lima, 2020]; Invisible Homeland [British Museum, London, 2019]; To Live [Centro Cultural Peruano Norteamericano, Arequipa, 2019]; Time Is a Myth [Centro Cultural Chaves de la Rosa, Arequipa, 2018]; The Mother of the Lamb [Pucara Bulls Art & Design Store, Arequipa, 2017]; The Fire of Children [Museum of the Santo Domingo Convent – Qoricancha, Cusco, 2015]; The Heart of a Bird [Centro Cultural Peruano Norteamericano, Arequipa, 2010]; Without the Rose We Can Do Nothing [Galería Juan Pardo Heeren, ICPNA, Lima, 2010]; Dialectics of Peace — public space intervention [Plaza de Armas, Arequipa, 2010]; Alice [Galería Celda de Arte Virtual, 2009]; and Levitations in Paris [Alliance Française of Arequipa and Trujillo, 2009].
Eposições duo inclue La Voix Humaine with Raúl Chuquimia [La Centrale, Paris, 2019]; Symbolism of Emancipation: The Culture of Freedom with Raúl Chuquimia Ramos [Convento de Santo Domingo – Qoricancha, Cusco, 2014]; Young Talents: Arequipa with Lucio Puma Ydme [John Harriman Gallery, British Cultural Centre of Lima / San Juan de Lurigancho Gallery, 2010]; and See Double with Zoraida Acosta Silva [Centro Cultural Chaves de la Rosa, Arequipa, 2007].
Nereida participou de inúmeras exposições coletivas, incluindo Peru and the Andes – Living with Land and Sea [permanent exhibition, British Museum, London, 2023[; Now What – Drawing Edition [John Harriman Gallery, British Cultural Centre of Miraflores, Lima, 2023[; I’m Not Going to School Anymore: Education, Institution, and Image in Recent Peruvian Printmaking [Museo del Grabado ICPNA La Molina, Lima, 2023]; Old Signs / New Rotations: Experimental Poetry in Latin America [Museum of the University of Antioquia, Colombia, 2023]; YUYAYMANAKUNAPAQ WIÑAYPAQ PARA RECORDARNOS SIEMPRE [José María Arguedas House, Ayacucho, 2023]; Healing Earth [Sismo Espacio, Arequipa, 2023); Latin American Brunch (Enhorabuena Espacio, ARCO Madrid, 2023]; Threads That Resist, Threads That Subvert [John Harriman Gallery, British Cultural Centre, Lima, 2022]; Contemporary Imaginaries, Vol. I [Museo de Arte de Lima – MALI, 2021]; Denying the Desert [Museo de Arte Contemporáneo de Lima, 2021]; Moi Nous Elles Les Nouvelles Chimères – Post-confinium [Espace Saint-Rémi, Bordeaux, 2021]; Galería Barroca – Amtaña / Remember [8th Arica Barroca Festival, 2021]; Visual Resistances, Civic Aesthetics [Metropolitan Museum of Lima, 2021]; A Spirit in Motion – Cultural Networks of Amauta Magazine [Casa de la Literatura Peruana, Lima, 2020]; 11 Contemporary Artists from the White City in Houston [University Academic Center Gallery, Houston Baptist University, Texas, 2012]; Peruvian Painting Today [Museum of the Americas, Miami, 2011]; and The Last Lustrum [Raúl Porras Barrenechea Gallery, Ricardo Palma Cultural Center, Lima, 2010].
A obra de Mamani integra diversas coleções públicas, incluindo the British Museum [London], the Museum of Contemporary Art of the Universidad Nacional Mayor de San Marcos [Lima], the Central Museum of the Central Reserve Bank of Peru [Lima], Casa de la Literatura Peruana [Lima], and the Museo de Arte de Lima [MALI], bem como inúmeras coleções privadas no Peru e no exterior.
Nereida Apaza Mamani, detalhes do Historia Doméstica del Perú, 2020. Serigrafia e bordado sobre tecido, livro de artista. Cortesia da artista.
Imagem de capa: Nereida Apaza Mamani, detalhes do Silencio, 2015. Serigrafia e bordado sobre tecido, livro de artista. Cortesia da artista.
*decolonialidade é mais precisa do que descolonização quando se refere a uma prática crítica em curso, e não a um processo histórico concluído.











