Proxyco: Construindo um Espaço Entre Mundos

Video: Lee Landell (3rd❚third)
Foto: Anita Goes & Cortesia Proxyco
Palavras: Anita Goes, Laura Saenz & Alexandra Morris
Manhattan, 2026

Nova York sempre foi uma cidade moldada por pessoas que chegam de outros lugares. Seu mundo da arte, no entanto, nem sempre refletiu a amplitude dessas histórias com a mesma generosidade. Quando Laura Saenz e Alex Morris começaram a imaginar a Proxyco Gallery, há quase uma década, perceberam uma lacuna: havia pouquíssimos espaços em Nova York dedicados a artistas latino-americanos contemporâneos, particularmente àqueles que transitavam pela experiência de viver e trabalhar entre a América Latina e os Estados Unidos. O que começou como uma afinidade profissional e uma amizade de quase vinte anos transformou-se, aos poucos, em uma galeria construída em torno dessa condição de pertencer a mais de um lugar ao mesmo tempo.

Saenz, originalmente da Colômbia, e Morris, da Cidade do México, se conheceram em Nova York de uma maneira muito nova-iorquina: pelo Craigslist. Morris havia acabado de se formar e se mudar para a cidade quando respondeu a um anúncio publicado por Saenz. Na época, Saenz trabalhava em uma galeria especializada em grandes mestres da arte moderna latino-americana. Morris passou a trabalhar com ela, e o que começou como uma relação entre empregadora e funcionária rapidamente se transformou em uma amizade próxima e na percepção de como suas diferentes qualidades se complementavam de maneira natural.

Anos mais tarde, quando Saenz cogitava voltar para a Colômbia, Morris pediu que ela não aceitasse outro emprego. Ela tinha uma ideia. “Eu não teria feito isso com mais ninguém”, relembra Morris. Juntas, desenvolveram um plano de negócios e começaram a pensar seriamente sobre o que gostariam de acrescentar à paisagem artística de Nova York. A Proxyco nasceu não apenas da identificação de um mercado pouco atendido, mas do desejo de criar um espaço cultural e uma comunidade onde artistas latino-americanos contemporâneos pudessem contar suas próprias histórias por meio de seus trabalhos.

“Essa distinção — entre identificar um mercado e construir uma comunidade — permaneceu central para a galeria“, diz Laura. 

O Que uma Galeria Ainda Pode Fazer

Em um momento em que artistas podem se comunicar diretamente com públicos, colecionadores e instituições por meio das redes sociais, a necessidade do modelo tradicional de galeria é frequentemente questionada. Laura e Alex não defendem que todo artista precise de uma galeria. Alguns conseguem sustentar suas práticas por meio de residências, apoio institucional e outras estruturas e, em determinados momentos de suas trajetórias, podem ter pouca necessidade de representação comercial.

Para os artistas que desejam ser representados, no entanto, a Proxyco entende seu papel como algo que vai muito além da venda de obras.

Há exposições e feiras de arte, mas também conversas com curadores, assistência à produção, organização do ateliê, empréstimos, documentação e as inúmeras responsabilidades administrativas que envolvem a carreira de um artista. Alex descreve esse trabalho quase como um exercício de remover obstáculos: o artista deve poder se concentrar na criação enquanto a galeria administra grande parte do que existe ao redor desse processo.

Laura também enfatiza algo que pode facilmente se perder em uma economia da arte cada vez mais organizada em torno de feiras e imagens digitais: a importância da própria exposição.

Um estande pode apresentar obras individualmente, mas uma exposição permite que um artista construa um mundo. As obras podem existir em relação umas às outras, a arquitetura pode se tornar parte da experiência, e ideias desenvolvidas ao longo de meses ou anos podem se desdobrar espacialmente. Essa distinção é particularmente evidente na relação da Proxyco com a escultora brasileira Juliana Cerqueira Leite, cujas exposições exigem uma reflexão prolongada sobre como os objetos ocupam o espaço e operam coletivamente.

Nesse sentido, a galeria continua sendo importante não porque controla o acesso a um artista, mas porque pode oferecer as condições necessárias para que uma prática se expanda.

Uma Galeria Construída a Partir de Relações

A Proxyco não começou com um grupo convencional de artistas representados. Em vez disso, Saenz e Morris permitiram que as relações se desenvolvessem gradualmente. Elas podiam convidar um artista para participar de uma exposição coletiva, colaborar em uma feira de arte, observar como aquela relação evoluía e, somente então, considerar uma representação formal. Morris compara esse processo a um relacionamento: compatibilidade importa.

Para elas, a representação envolve não apenas uma responsabilidade financeira, mas também emocional. Quando a Proxyco assume um compromisso com um artista, a intenção é crescer junto com ele a longo prazo. Saenz e Morris querem ter o tempo e a energia necessários para apoiar verdadeiramente cada prática.

O trabalho em si é naturalmente fundamental, mas não é o único aspecto levado em consideração. Valores compartilhados, ética de trabalho e compatibilidade pessoal são igualmente importantes. Ambas as diretoras precisam acreditar em um artista antes de avançarem com uma representação. Se uma delas tiver dúvidas, elas preferem continuar a conversa em vez de forçar uma decisão.

 

América Latina em Nova York

A ideia de América Latina nunca foi culturalmente simples. Ela reúne enormes diferenças de língua, história, raça, política e tradições artísticas. O Brasil, em particular, muitas vezes ocupa uma posição singular dentro desse contexto. Sua língua portuguesa, sua escala e seu ecossistema artístico extraordinariamente desenvolvido podem fazer com que o país pareça, ao mesmo tempo, central à América Latina e um universo cultural em si mesmo.

Morris reconhece essa complexidade. Para ela, o Brasil possui uma história artística e cultural tão extensa que, às vezes, sente que o observa de fora. A relação de Saenz com o país é diferente. Durante uma viagem ao Rio de Janeiro, ela ligou para Morris e anunciou que queria se mudar para lá. Morris se lembra que, quando Saenz finalmente voltou a Nova York, parecia quase transformada — mais relaxada, radiante, vestindo cores vibrantes e um par de sapatos divertidos que havia trazido do Brasil. Algo do país claramente havia permanecido com ela. Como Morris se recorda, Laura havia retornado a Nova York carregando consigo um pouco do Brasil — ou talvez tivesse simplesmente descoberto uma alma brasileira que sempre estivera ali.

O que é particularmente instigante na programação da Proxyco, é que sua compreensão da identidade latino-americana não se limita às fronteiras nacionais. A maioria de seus artistas vive em Nova York. Elas mesmas, Saenz e Morris, estão na cidade há quase duas décadas. A galeria ocupa, portanto, um espaço entre mundos, certamente latino-americano, mas também profundamente nova-iorquino.

Para Morris, essa dualidade é essencial. A Proxyco foi concebida não apenas para trabalhar com artistas da América Latina, mas especialmente com aqueles que vivem em Nova York e transitam pela experiência de habitar dois universos culturais. Elas reconhecem como a migração transforma a linguagem artística, como um artista pode estudar, trabalhar e construir uma vida em Nova York enquanto continua elaborando memórias, histórias e linguagens visuais enraizadas em outros lugares.

Esse estado intermediário não é algo que a Proxyco tenta resolver. É justamente o que confere à galeria seu caráter.

Em uma cidade construída pela migração, espaços como esse são importantes porque complexificam a ideia de que a arte latino-americana existe em algum lugar “fora” de Nova York. Os artistas com quem a Proxyco trabalha não estão simplesmente trazendo a América Latina para a cidade; eles já fazem parte do tecido cultural nova-iorquino. Suas histórias se somam às muitas histórias e por meio delas a cidade continuamente se reconstrói.

Juliana Cerqueira Leite: A Escultura como Ponto de Conexão

A relação da Proxyco com Juliana Cerqueira Leite começou de uma maneira incomum para a galeria. Ela foi apresentada a Laura e Alex pelo consultor de arte Felipe Melo, sendo a única artista do programa que conheceram por intermédio de um consultor. A conexão rapidamente fez sentido. Elas foram atraídas pela inteligência da prática de Cerqueira Leite, pela força do trabalho e pela própria obra, a escultura, uma linguagem que há muito interessa à galeria.

Cerqueira Leite também incorpora muitas das questões que estão no centro da identidade da Proxyco. Brasileira e residente em Nova York há muitos anos, sua prática se insere em uma conversa internacional sobre arte contemporânea, ao mesmo tempo que mantém uma relação com histórias e experiências que não podem ser facilmente separadas em uma única geografia.

Para Saenz, o Brasil já fazia parte de sua compreensão da arte latino-americana. Para Morris, trabalhar de perto com Cerqueira Leite também abriu caminho para um encontro mais profundo com uma cultura cuja complexidade ela prontamente reconhece e que ainda está aprendendo a compreender. 

O que imediatamente a conecta a Cerqueira Leite, no entanto, é o próprio trabalho, algo que descreve como acessível a ela “como pessoa e como mulher”, mesmo quando as referências especificamente brasileiras que o atravessam exigem uma compreensão mais aprofundada.

A parceria entre elas também demonstra a crença da Proxyco naquilo que uma exposição pode oferecer a um artista. Saenz descreve Cerqueira Leite pensando, por mais de um ano, como as obras habitariam juntas o espaço da galeria, não como objetos isolados, mas como um corpo interconectado. Esse tempo e esse espaço para experimentação, fazem parte do que a Proxyco considera fundamental na sua responsabilidade como galeria.

A Art Dialogues também se sentiu imediatamente atraída por Juliana e pela profundidade e amplitude de sua prática. Essa afinidade compartilhada — entre a Proxyco e Juliana, a Proxyco e a Art Dialogues, e a Art Dialogues e Juliana — evoluiu gradualmente para uma parceria que parece ao mesmo tempo natural e profundamente alinhada. Em novembro, essas relações irão convergir quando a Proxyco inaugurar a exposição individual de Juliana Cerqueira Leite e a Art Dialogues lançar sua sexta edição, dedicada à escultura.

Muitas Histórias, Uma Cidade

Quando perguntei a Saenz e Morris o que esperavam da compreensão sobre a galeria de alguém que entrasse na Proxyco daqui a dez anos, Morris voltou à própria Nova York.

“Nova York tem muitas histórias para contar”, disse ela.

Durante grande parte de sua história, argumenta Morris, o establishment artístico da cidade privilegiou narrativas eurocêntricas e dominadas por homens. A Proxyco foi criada, em parte, para abrir espaço para outras histórias e, particularmente, para que artistas latino-americanos contemporâneos, muitos deles mulheres, pudessem contar essas histórias por meio de seus próprios trabalhos. Sua esperança é que os visitantes reconheçam essas experiências como portadoras do mesmo valor que qualquer outra história apresentada no mundo da arte.

Talvez a maneira mais interessante de compreender a Proxyco depois de quase uma década seja como uma ponte, não apenas entre artistas e colecionadores, mas entre culturas, memórias e formas de pertencimento. Laura e Alex construíram a galeria em torno de artistas que habitam esses espaços intermediários: pessoas cujas vidas atravessaram fronteiras e cujas práticas carregam vestígios de mais de um lugar. Nesse sentido, a Proxyco não está simplesmente representando artistas latino-americanos em Nova York; está criando um espaço para identidades em constante movimento, que absorvem, lembram e se transformam, um reflexo, talvez, da própria Nova York.

Nove anos após a fundação da galeria, os resultados dessa abordagem construída com paciência e sem pressa, tornam-se cada vez mais visíveis. Artistas de seu programa estão participando de exposições em museus e recebendo importantes encomendas. Saenz aponta a escultura pública monumental de Pablo Gómez Uribe, em Medellín, como exemplo do tipo de trajetória que esperavam ajudar a viabilizar. Oportunidades como essa representam não apenas um avanço profissional, mas a concretização de uma ambição existente dentro da própria prática do artista.

Há algo significativo no fato de Saenz e Morris falarem sobre essas conquistas principalmente em termos de seus artistas, e não da galeria. A medida de sucesso para elas não é simplesmente a expansão, as vendas ou a visibilidade da própria Proxyco. É saber se os artistas estão chegando aos lugares onde desejam chegar.

No fim das contas, um artista quer que seu trabalho seja visto, diz Saenz. A galeria pode ser um desses espaços, mas também pode ser um museu, outra galeria em outro país, uma encomenda pública ou uma instituição com a qual ainda não tenha estabelecido contato. A tarefa da Proxyco é ajudar a criar caminhos entre esses lugares.

Proxyco: @proxycogallery // proxycogallery.com

Lee Landell: @lee_landell

Anita Goes: @anitagoes