A Linguagem Comestível de Eujin Lee
Palavras: Sylvia C.Jorge
Editora: Anita Goes
Retratos: Jack Pompe
Manhattan, 2026
Ao meio-dia, o Lysee está cheio.
O espaço estreito, de dois andares, vibra com uma precisão silenciosa — mais coreografia do que pressa.
No térreo, o ambiente é acolhedor, as conversas se sobrepõem, e o fluxo constante nunca se rompe. No andar de cima, as sobremesas estão dispostas como objetos em uma galeria: compostas, deliberadas, quase precisas demais para serem tocadas. A fila avança aos poucos, mas nada parece apressado.
Entro, subo, e peço um pain au chocolat enquanto espero. Dou uma mordida. As camadas se distinguem, as folhas finas de massa se quebram à medida que você avança, separando-se antes de se recompor. O ganache de chocolate no centro é denso, suave, quase imóvel. Você sente mais do que percebe.
Quando desço e me acomodo à mesa, Eunji Lee aparece poucos minutos depois, trazendo um prato. Nele está o Lysee, a sobremesa que dá nome ao espaço.
É composta por uma mousse de arroz integral tostado, leve e contida na doçura, combinada com caramelo, praliné e um sablé de pecã. A mousse cede facilmente, macia e silenciosa, enquanto o praliné e o sablé se mantêm firmes — crocantes.
Ao fundo, o espaço segue como antes: cheio, constante, calmo.
A atmosfera espelha as sobremesas — compostas, mas não rígidas. Controladas, mas não frias. Nada é excessivo.
Para Lee, esse equilíbrio — entre controle e expressão, contenção e instinto — se constrói ao longo do tempo. Lentamente. Entre lugares. Entre versões de si.
Lee nasceu na Coreia do Sul, em uma casa onde a arte não era profissão, mas presença constante.
Seus pais se conheceram em um grupo de arte na universidade. Não se tornaram artistas, mas nunca deixaram de desenhar. “Todo fim de semana íamos a museus ou galerias”, ela conta. “Eles estavam sempre desenhando. Eu desenhava ao lado deles.”
Esse contato inicial não era formal — era proximidade, hábito. Trabalhar com as mãos vinha naturalmente.
“Eu gostava de criar qualquer coisa com as mãos”, diz. Desenho, cerâmica, origami — não importava. O importante era o gesto.
Paralelamente, outra memória se formava — menos visível, mas igualmente precisa. Sua avó vivia no interior, e as visitas seguiam outro ritmo: comida, cultivada e preparada manualmente.
“Ela estava sempre cozinhando, sempre assando”, lembra. “O cheiro dos vegetais cozinhando ficou comigo.”
Ela cozinhava com a avó.
Aprendeu a fazer doces tradicionais coreanos. Tudo partia dos ingredientes do entorno.
Hoje, ela não separa essas experiências. Arte e comida não eram campos distintos, mas o mesmo impulso em formas diferentes.
Essa conexão só ficaria clara mais tarde.
Aos 14 anos, viu confeiteiros na televisão — e não parou de pensar nisso.
Eles criavam sobremesas não apenas técnicas, mas visuais. Esculturais.
“Eles estavam fazendo algo bonito, como uma obra de arte”, diz. “Mas as pessoas podiam comer. E isso as fazia felizes.”
“Era isso que eu queria fazer.”
Aos 18, convenceu os pais a deixá-la sair da Coreia e se mudar para a França. Não houve hesitação. “Eu não queria perder tempo”, diz. “Queria começar o mais cedo possível.”
Começou pelo pão.
Foi uma escolha proposital. Massa, fermentação, construção — a base. “Achei que essa era a base”, diz ela. “Para entender tudo.”
Estudou fora de Paris, depois se mudou para Estrasburgo, onde ficou três anos antes de retornar à capital para estudar confeitaria formalmente.
A transição não foi somente técnica. Era a única estrangeira no curso. Estudava tudo: língua, técnica, cultura.
“Depois da escola, eu só estudava”, diz ela. “Eu estava muito animada por estar ali.”
Há uma clareza na forma como ela descreve esse período. Apenas foco.
Mas, quando a escola terminou, o caminho adiante já não era tão claro.
Encontrar trabalho como estrangeira na França se mostrou difícil. As candidaturas ficavam sem resposta. As portas não se abriam com facilidade.
“Houve um momento em que pensei que talvez tivesse que voltar”, diz ela.
Em vez disso, surgiu uma oportunidade — tardia, quase inesperada. No Kitchen Galerie Bis, perto de Notre-Dame, um chef decidiu apostar nela.
Ali, Lee se viu responsável pelo programa de confeitaria, apesar de ter acabado de se formar.
“Tive que ser uma guerreira”, diz, meio rindo. Ela fala com leveza, mas não de forma casual.
Mas aquele ambiente a levou além do que conhecia.
“Vi ervas, especiarias, métodos — coisas que eu não veria em uma cozinha de confeitaria”, diz. “Isso abriu minha mente.”
Sazonalidade e frescor passaram a orientar suas decisões tanto quanto a precisão.
Ainda assim, ela sentia os limites do que poderia aprender ali. A confeitaria, no nível que buscava, exigia algo mais — profundidade, rigor.
Foi isso que a levou ao Le Meurice.
Sob a direção de Cédric Grolet, a escala aumentou, o ritmo se intensificou e as exigências tornaram-se rigorosas.
As jornadas eram longas — começavam cedo pela manhã e se estendiam até a noite. Cada detalhe importava. Cada segundo contava.
“Não foi fácil, mas aprendi muito.”
O que ela enfatiza não é apenas a habilidade, mas a resistência. Gestão. Precisão. A capacidade de operar em um ambiente onde os padrões eram intransigentes.
Há uma história que ela conta que traduz bem esse modo de pensar.
Certa noite, diante da tarefa de produzir centenas de componentes delicados para a já famosa maçã trompe l’oeil, decidiu finalizar tudo — sozinha — em vez de deixar para o dia seguinte. Trabalhou durante toda a noite, seguindo até que a equipe da manhã começasse a chegar.
“Ninguém me pediu para fazer isso”, diz. “Eu só queria terminar.”
Não como sacrifício, mas como compromisso — com o próprio trabalho.
Esse período na França — quase duas décadas — refinou sua técnica e disciplina. Mas não era o quadro completo.
Porque, ao longo de todo esse tempo, algo mais se formava silenciosamente.
“Sempre tive ideias”, diz ela.
Eujin mantinha cadernos — esboços, conceitos, desenhos de sobremesas que ainda não existiam. Formas, ingredientes, composições. Possibilidades.
“Eu as desenhava”, conta. “Pensava em quais ingredientes usar, que tipo de forma.”
As ideias não surgem prontas — elas se acumulam, como elementos reunidos antes de serem tecidos em forma. Estavam enraizadas em uma parte de si que ainda não estava plenamente expressa: sua identidade coreana.
“Aprendi muito na França”, diz. “Mas, no meu coração, tenho minha herança coreana.”
Essa lacuna — entre formação e identidade — tornou-se algo que ela queria explorar de maneira mais direta.
Assim, quando surgiu uma oportunidade em Nova York, no Jungsik, ela a abraçou.
Em um dos restaurantes coreanos mais renomados da cidade, Lee começou a desenvolver um programa de sobremesas baseado na técnica francesa e em ingredientes coreanos, em um ambiente que permitia experimentação.
“Há mais espaço para testar coisas”, diz ela. Para experimentar, ajustar e retornar a uma ideia.
Mas a experimentação não era instintiva — era estudada.
Ela a abordava por meio da observação e do ajuste. Provando amplamente. Compreendendo como as pessoas reagem à doçura, à textura e ao contraste.
Ela descreve isso de forma prática: “Em Nova York, as sobremesas são mais doces”, diz. “Em Paris, são menos doces, mais ácidas. Na Coreia, são mais leves — não muito doces.”
Em vez de escolher uma única direção, ela buscou conciliar essas diferenças.
Uma das expressões mais claras dessa mudança foi uma sobremesa que ela criou no Jungsik: New York Soul.
Não era apenas um prato. Era um reflexo da energia e dos contrastes da cidade. Uma forma de conectar seu próprio percurso — da Coreia à França e a Nova York — em uma única composição.
Marcou um ponto de virada: da aprendizagem e adaptação para a definição.
Quando Lee abriu o Lysee, em 2022, essa autoria se traduziu em um espaço físico.
A disposição segue a mesma lógica do seu processo: ordenada, mas não rígida. No andar de cima, uma galeria. Embaixo, um café. Observação e experiência — separadas, mas conectadas.
Esse mesmo pensamento se estende às suas criações. Uma delas, explica, é composta por doze, treze camadas. Cada uma distinta, cada uma necessária. Você não percebe todas de imediato.
Muitas vezes, suas sobremesas são descritas como franco-coreanas. Mas, para Lee, esse rótulo não faz muito sentido.
“Isso é apenas a minha identidade”, diz.
A técnica francesa é a base. Ingredientes e memórias coreanas orientam o caminho. A produção local a ancora em Nova York. Ela presta atenção minuciosa à farinha que utiliza — de onde vem, como é moída.
Cada sobremesa torna-se um ponto de interseção entre esses elementos — não dissolvidos em algo indistinto, mas mantidos em tensão.
Sua prática não é definida por um conjunto específico de ingredientes ou por um estilo fixo, mas pela forma como cada ideia se desenvolve.
É o próprio processo.
Ela desenha. Testa. Observa. Ajusta.
As ideias não chegam prontas — começam na memória e no esboço, e ganham forma por meio dos ingredientes e da estrutura.
Nesse sentido, cada uma de suas criações se aproxima mais de um têxtil do que de um objeto finalizado. Fios acumulados ao longo do tempo. Influências entrelaçadas, às vezes visíveis, às vezes não.
A forma final pode parecer precisa, até mesmo minimalista.
Mas, por baixo, há acúmulo — de memória, de formação, de repetição.
De volta ao Lysée, o espaço segue em seu próprio ritmo.
No andar de cima, as sobremesas permanecem intactas até que deixam de estar — até que alguém escolhe uma e a corta, revelando o que há dentro.
A forma cede ao prazer.
Lee se move pelo espaço em silêncio. Não há performance nisso.
Apenas o trabalho.
E, no que ela cria, partes de sua vida permanecem — não como uma narrativa direta, mas incorporadas ali. Construídas ao longo do tempo. Refinadas pela repetição.
Se tudo começou desenhando ao lado dos pais, observando a avó cozinhar, aprendendo a moldar massa e açúcar, o que ela faz hoje continua esses mesmos gestos.
Agora, o meio mudou.
Os fios ainda estão lá — apenas tecidos em algo feito para ser desfeito, camada por camada.
Lysée @lysee.nyc
Eunji Lee eunli.leeee
Sylvia C. Jorge @sylviabkny
Anita Goes @anitagoes
Jack Pompe: @jack.pompe
Em março deste ano, a chef Eunji Lee apresentou o The Journey with Lysée, uma experiência inédita de degustação em restaurante de sobremesas em Manhattan.
O Journey é um menu de 10 etapas que começa com três pequenas entradas salgadas refinadas, incluindo uma torta de legumes da estação e um ovo com caviar e brioche. Em seguida, os convidados passam por três sobremesas em formato de pequenas porções, seguidas por um curso de pão com manteiga e uma experiência com vinagre, antes de chegar às sobremesas empratadas características do Lysée, finalizando com petit fours.
A equipe vem trabalhando neste projeto há vários meses, criando uma forma totalmente nova de vivenciar um restaurante de sobremesas na cidade de Nova York. Ao colaborar com diversos chefs e amigos na cozinha, a chef Eunji pôde perceber todo o potencial da equipe — da confeitaria ao atendimento — o que lhe permitiu conceber o The Journey. Com isso, o time passou a trabalhar de perto com fazendas locais e pequenos produtores, incluindo o pão laminado do curso Bread & Butter, feito com uma mistura exclusiva de farinhas, moídas semanalmente no Brooklyn Granary, a partir de grãos cultivados pela Hudson Valley Hops & Grain, uma fazenda regenerativa certificada pelo USDA. É a versão do Lysée de “farm to table”, mas traduzida na linguagem própria da equipe.
Com esse novo formato de degustação, a experiência recebe apenas 16 convidados por noite — às quintas-feiras, às 19h, na confeitaria e restaurante de sobremesas.
As reservas podem ser feitas AQUI. Para mais informações: www.lyseenyc.com ou @journey.lysee.