Mia Weiner encontra Tuna Bora

Mia Weiner (n. 1991, Chicago, EUA) concluiu seu MFA em Fiber and Material Studies pela School of the Art Institute of Chicago em 2020 e é bacharel em Fiber pelo Maryland Institute College of Art (2013). Em 2024, recebeu o V&A Parasol Prize, concedido pelo Victoria & Albert Museum em parceria com a Parasol Foundation. Em diálogo com a história dos têxteis, Mia constrói narrativas pessoais que investigam identidade, gênero e as complexidades das relações humanas. Cada obra é cuidadosamente tecida à mão em seu ateliê em Los Angeles. Seu trabalho já foi apresentado internacionalmente em instituições e espaços como Fotomuseum Den Haag (Holanda), Hastings Contemporary (Reino Unido), T293 (Roma), Eric Firestone Gallery (Nova York), Anat Ebgi (Los Angeles), The Hole (Nova York), Ochi Gallery (Los Angeles), Homecoming Gallery (Amsterdã), Vortic Gallery (Londres), Mama Projects (Nova York), Compound (Long Beach), Untitled Art Fair (Miami), Paris Photo (França), WHATIFTHEWORLD (Cidade do Cabo) e F2T (Milão). Seu trabalho foi destaque em publicações como The Wall Street Journal, Los Angeles Times, New American Paintings, Coveteur, ARTnews e The Artist’s Newspaper. Weiner é Yaddo Fellow e integra a coleção permanente do Kunstmuseum Den Haag, na Holanda.

Tuna Bora (elu/delu) é um artista turco-americano radicado em Los Angeles, cuja prática atravessa pintura, cinema e novas mídias. É bacharel em Belas Artes pelo Otis College of Art and Design e já expôs em espaços como Spring/Break LA, Torrance Art Museum, Academy Museum of Motion Pictures, além de exposições internacionais.

Mia e Tuna se conheceram em uma festa de fim de ano organizada por uma amiga em comum — e excelente pintora — Cindy Phenix. A conexão começou a partir de um sabor inusitado de batatas fritas e logo se transformou em uma amizade próxima. Descobriram que moram a poucos quarteirões de distância e, com frequência, caminham pelo Echo Park conversando sobre seus processos artísticos (e sobre a vida…) sempre que precisam de uma pausa do estúdio e de um pouco de sol.

Mia Weiner: Obrigada por fazer essa conversa comigo.

Tuna Bora: O prazer é meu!

MW: Fiquei pensando se nossas vozes são diferentes o suficiente e se as pessoas vão saber quem é quem [As conversas são transcritas de gravações].

TB: Acho que você tem uma voz muito distinta.

MW: É particular.

TB: É muito calmante.

MW: Nem todo mundo gosta, porém. Às vezes homens mais velhos fingem que não conseguem me ouvir. Dizem que o tom é muito alto. Não é como se eu fosse um animal que só se comunica em frequências ultrassônicas [risos].

TB: Eles simplesmente não estão acostumados a ver mulheres como seres humanos — isso é outra coisa. Mas não há cura para isso, infelizmente. Cada um tem que sair dessa sozinho [risos].

MW: Isso acontece cada vez menos [risos]. Mas vozes são algo muito especial. É tão bonito que cada pessoa tenha a sua. Enfim, estou muito animada em fazer isso com você porque a gente conversa tanto [risos].

TB: Devo encarar isso como um elogio ou não [risos]?

MW: A gente faz muitas caminhadas e conversa sobre nossas práticas de um jeito muito bonito. Muitos dos meus amigos são artistas, mas não falamos sobre arte como nós duas falamos. Nosso trabalho é muito diferente, mas pensamos de forma muito parecida sobre como fazemos o trabalho, e isso me anima. Falamos muito sobre pausas no ateliê, sobre sentir-se produtiva e sobre os momentos entre uma coisa e outra.

TB: Concordo. Gosto muito de conversas sobre arte que não a transformam em um objeto exótico, em que se tenta criar uma espécie de pretensão sobre o quão mágico esse objeto é. Acho que isso vira uma barreira para pessoas interessadas no seu trabalho. Não acho que um artista deva ou consiga ser compreendido por todo mundo, mas gosto da ideia de alguém que vem até metade do caminho, e aí artista e observador se encontram em algum ponto. Quando você olha para uma pintura muito famosa, por exemplo, o valor dela é construído por centenas de milhares de mentes e pelos significados e interpretações individuais de cada pessoa.

MW: Sim. E existem tantas pinturas que são muito óbvias nesse sentido. Fico profundamente emocionada quando vou a um museu e vejo uma dessas obras — pinturas icônicas que estudamos e vimos reproduzidas em livros, camisetas, em todo lugar — e ainda assim sentimos algo ao estar diante delas. Algumas obras realmente sustentam essa energia de um modo especial. Mas com outras é quase como se eu ficasse cega diante delas.

TB: Exato. E essa percepção muda com o tempo, não é? Existem pinturas que você não aprecia quando é jovem. Talvez pintura seja até um termo restrito demais quando falamos de museu… O seu trabalho, por exemplo: ele é imagem e objeto ao mesmo tempo, e eu sempre penso no lugar que ele ocupa como um recipiente. Sem trocadilho, ele tece uma conversa que entra e sai da vida  das pessoas, e é assim que começa a adicionar valor e espaço na cultura. Acho que, no fundo, isso é sempre mais valioso do que o objeto em si. O objeto quase se torna um significante dessas conversas.

MW: Nossa, é tão bom ouvir isso. Quando penso em fazer uma imagem, penso no que significa transformar o digital de volta em objeto e a imagem em um objeto macio. Mas todas as obras vêm de uma sensação no corpo, de memórias somáticas ou experiências. De certa forma, me interesso mais pelo que a pessoa sente ou por como ela entra na obra e como seu corpo a percebe do que pelo que ela está olhando fisicamente. Me interesso por estética, claro, mas o que quero que as pessoas levem consigo é uma sensação.

Mia Weiner, imagem de instalação de Tender Dreams com a Galeria T293 em Nápoles, Itália, 2024. Cortesia da artista e da T293, Roma, Itália.

TB: Exatamente. Gosto da ideia de algo que ocupa um ambiente e o transforma. É como uma presença que você não consegue ignorar totalmente. E até ignorar é outra forma de interação, não é? Torna-se uma relação entre duas coisas.

MW: Mesmo dentro da obra, sempre existem dois corpos. E quando penso no material, há algo na proliferação da imagem digital e em como pensamos a imagem hoje, e no que significa torná-la macia novamente, por meio do trabalho, do cuidado, da mão… Há algo muito especial em uma imagem ser fisicamente macia, literalmente macia. Existe muito poder na suavidade. É uma forma de resistência. Acho que há muitas razões pelas quais trabalho com têxteis há anos. É um meio muito interessante para falar de gênero, trabalho e intimidade — temas muito específicos. Tenho pensado muito no poder da suavidade ultimamente e também nas transformações que acontecem nos materiais. Agora tenho tingido, adicionado às obras cristais, miçangas e outros objetos encontrados. Fico maravilhada com práticas como a sua, que atravessam tantos meios diferentes, porque você pode trabalhar com tantos materiais. Tenho muita curiosidade sobre como você avança em cada um deles.

Mia Weiner, to kiss starlight, 2025. Algodão, acrílico e seda tecidos à mão, 66,7 × 63,5 cm (94 × 66 cm com franjas). Cortesia da artista.

TB: Acho que saber quando é o momento certo de fazer algo ou de seguir adiante é a parte mais difícil da arte. Saber quando algo está terminado. Também tenho uma relação profunda com imagens digitais. Gosto da ideia de pegar algo abstrato que nos afeta, algo que é quase um hiperobjeto em si, e colocá-lo em um espaço onde ele volta a ser objeto — algo que acho que você também faz. Eu costumava ser diretora de arte em animação, e talvez seja por isso que transito entre coisas, porque na animação você cria um mundo do zero, em uma linguagem visual e estética que precisa dialogar com a narrativa. Seja mimetizando ou contrastando a história, você está dizendo algo específico, porque é uma forma muito diferente de construção de mundo. Você não encontra simplesmente uma boa locação e filma — o deserto é só o deserto e todo mundo entende isso. Você precisa quase reinventar o deserto: como representar um mundo que todos entendam, mesmo que ele não seja real? Eu adoro essa conversa sobre o que é real e o que não é. Acho que certas ideias pedem certas formas, e você só descobre isso se estiver disposta a colocá-las em diferentes recipientes e ver o que funciona para elas. É um pouco como acontece com nossos fluxos de fotos. A era da impressão fotográfica passou. Quando você recebe uma foto impressa, ela tem uma sensação estranha — parece mais antiga do que realmente é. E adoro as imagens tecidas que você cria, porque parecem algo que deveria ser antigo, mas não são, certo?

Tuna Bora, Your IG Remains, 2025. Acrílica e pastel sobre tela, 76,2 × 101,6 cm. Cortesia da artista.

MW: Sim. Tenho muito interesse em têxteis históricos. Meus trabalhos geralmente vão para a parede e pendem como uma pintura, de forma plana e formal. As pessoas ficam surpresas por não serem objetos funcionais, como tapetes ou colchas. Mas, historicamente, tapeçarias estiveram nas paredes por muito tempo…

TB: Sim, eram quase instrutivas naquela época, não? Você olhava para ver uma narrativa sobre Jesus… como um unicórnio [risos].

MW: [risos] Sim, as histórias estavam nas paredes por razões práticas, como isolamento térmico ou acústico. E eram principalmente histórias religiosas ou morais, sobre o que se esperava que acreditássemos. Mas também carregavam muita espiritualidade sagrada.

TB: Há algo muito interessante nas pinturas daquela época. Se pensarmos nas tapeçarias europeias do século XVI… obviamente elas vêm de muito antes, mas há algo nelas que é utilitário. Elas dizem como você deve pensar. E gosto de como você faz isso a partir de outro lugar.

MW: Eu penso muito sobre o toque [risos].

TB: Ótimo!

MW: Tento retirar o máximo possível de narrativa. Por isso não há rostos em muitas obras. Alguns corpos estão de costas, não vemos seus rostos, e algumas figuras são simplesmente sem cabeça.

TB: Adoro isso.

MW: Mas há algumas com rostos, e elas trazem uma narrativa. Quero saber quem são e o que estão fazendo. Sei que muitas pessoas trabalham com figuras com rostos e ainda assim criam conexão de outro modo, mas essa não é a linguagem que descobri como usar. Penso no corpo como um alfabeto para falar de sentimentos. Não sei se você acredita nisso ou não, mas acredito, de verdade, que tudo o que fazemos carrega energia, quer pensemos nisso ou não. Tenho ficado cada vez mais consciente da energia embutida no trabalho que faço, separadamente do que ele parece visualmente. Mas claro que também penso nas imagens em si… Desculpa, perdi um pouco o fio da meada. Isso ia para algum lugar… Para onde foi [risos]?

TB: “Eu tinha entendido o sentido da vida, mas agora ele se foi” [risos]! Adoro que o toque e a suavidade estejam no centro do seu trabalho. Há algo muito enganoso na ideia de suavidade e na forma como lidamos com esse conceito no mundo. Supostamente, você é suave quando criança, quando não sabe nada, e depois as experiências te endurecem. Mas acho que, psicologicamente e emocionalmente, pessoas que mantêm a suavidade geralmente passaram por coisas muito difíceis. Não foi a ausência de dificuldade que criou a suavidade, mas quase uma escolha consciente de permanecer suave quando as coisas são duras — algo belíssimo e muito relevante para o momento em que vivemos. Isso também vale para a tecelagem, porque o ato de tecer é muito exigente para o corpo. É um trabalho pesado. Não sei exatamente quais ferramentas você usa agora, mas tecer geralmente envolve coisas afiadas: agulhas, fios… Elas não são suaves por si mesmas. O processo de fazer coisas com as mãos não é suave.

Imagem à esquerda: Mia Weiner, chicago summer (kiss), 2025. Algodão, acrílica e seda tecidas à mão, 50,8 × 45,7 cm (94 × 45,7 cm com franjas). Cortesia da artista e da Wishbone Gallery. Imagem à direita: Mia Weiner, the bathers (detalhe), 2023. Acrílica, algodão e seda tecidas à mão, 284,5 × 329,9 cm (315 × 329,9 cm com franjas).
Cortesia da artista e da T293, Roma, Itália.

Mia Weiner, together, in one breath, 2025. Algodão, acrílica e seda tecidas à mão, 218,4 × 304,8 cm (261,6 × 304,8 cm com franjas). Cortesia da artista.

MW: Sim, é trabalho. Muito trabalho. Fico o dia inteiro curvada, jogando o fio, indo e voltando. As pessoas sempre dizem: “ah, deve ser tão meditativo”. Não é!

TB: Isso me faz pensar naquele tipo de pessoa que olha para alguém pobre e diz: “ah, sua vida é tão autêntica. Mesmo sendo rico, não sou assim. Queria ter sua vida”. E a pessoa que realmente trabalha responde: “então vamos trocar de vida”.

MW: Mas, para ser justa, mesmo machucando o quadril, o ombro, e com todas essas coisas estranhas que acontecem com o corpo nessas posições, eu aprendi a meditar enquanto trabalhava. Então, embora não seja uma prática meditativa em si, com muito trabalho ela se tornou isso para mim. Não foi algo natural. Mas isso também tem a ver com a fantasia do fazer, não é? Existem tantas etapas antes da tecelagem em si: eu fotografo, edito, as coisas mudam bastante. Mas quando chego ao tear, sigo meu mapa e começo a tecer a imagem de uma vez, não dá para voltar atrás.

TB: Não dá [risos]?

MW: Seria muito difícil! Tenho essas fantasias de ser pintora, de poder mudar completamente a cor do fundo e depois voltar atrás.

TB: Dependendo do material, às vezes isso também é muito difícil. Em aquarela, por exemplo, não dá para fazer isso.

MW: É realmente uma fantasia. Também fantasio sobre como deve ser trabalhar com argila o dia inteiro, em contato com a terra. Aí tento trabalhar com argila e percebo que isso não é tão intuitivo para mim [risos].

TB: Adoro isso. Escuta, tenho quase uma visão muito pessoal sobre isso. O que descobri ao tentar simplesmente me tornar uma pessoa mais saudável é que muitas coisas criativas estão associadas à fantasia de transformar algo difícil em algo bom, de forma terapêutica. Mas acho que é um pouco como escrever ou correr: depois de ter feito ou criado algo, você se sente ótimo, mas o processo em si não é só meditativo e divertido.

MW: Não, é trabalho.

Tuna Bora, Stretch In The Sun, 2022. Acrílica sobre tela, 20,3 × 20,3 cm. Coleção de Maneli Keykavoussi.

TB: É trabalho! Pelo que você descreve, parece que é preciso realmente sentar e planejar todos os detalhes do que vai tecer, por causa da natureza implacável da tecelagem. Você quase já está na fase de renderização, em que todo o planejamento e os conceitos já foram definidos, certo? Aí você precisa ser paciente e até se perder no trabalho, mas isso só acontece porque houve todo esse planejamento antecipadamente.

MW: Fiz mesmo. É verdade. Há muito desse estado onírico de circular por espaços.

TB: E você é muito espiritual. Sei que você pratica meditação de verdade. E quando se está em um retiro, não é exatamente algo fácil ou tranquilo. Não é para ser. Meditação não é só relaxamento. E o corpo dói quando você passa vinte horas por dia rezando durante dez dias, com todas aquelas restrições. Acho que, nesse sentido, é parecido com a tecelagem [risos].

MW: Nunca tinha pensado assim. Uma tensão muito semelhante no corpo.

TB: Porque a coluna dói, o bumbum dói. Você fica sentada por muito tempo, não?

MW: Bom, quando teço, fico em pé.

TB: Você fica?

MW: Sim. Sou baixa demais para o meu tear [risos]. A maioria das pessoas fica em pé nesse tipo de tear por causa da largura. Então fico em pé, basicamente fazendo um tipo de dança o dia inteiro, porque você não pode apertar o pedal sempre com o mesmo pé. É repetitivo demais. Você tem que alternar, senão o corpo dói muito.

TB: Você ficaria com uma perna super musculosa e a outra fraca [risos].

MW: Uma panturrilha selvagem só [risos]! Então é meio uma dança constante. O que dói  são as costas. Também sou alta o suficiente para ter que me inclinar o tempo todo para passar o fio e ver o que estou fazendo. O tear não é vertical nem está na altura dos olhos. Então fico com as costas arredondadas [risos].

TB: Você faz alongamentos bons para as costas?

MW: Faço, sim. Também precisei descobrir quais práticas físicas fortalecem minha prática de tecelagem. Antes eu não fazia isso e doía o tempo todo. Aí descobri por que todo mundo ama Pilates! É ótimo para o corpo e realmente me ajudou. Porque eu teço por muito tempo. Não sou do tipo que trabalha meio período. Geralmente faço oito horas num dia normal, dezesseis se estou muito envolvida ou com prazo apertado. Trabalho em blocos. Não sei se você trabalha assim. Sei que algumas pessoas têm horários fixos e gostam de dividir as partes da prática. Você faz isso ou mergulha de uma vez e depois muda?

Mia Weiner em seu estúdio, Los Angeles. Cortesia da artista.

TB: Eu passo por fases. É quase como meses e estações. Por exemplo, para escrever, minha mente é mais clara de manhã. Mas também há momentos em que você carrega a energia da noite anterior e já sabe exatamente o que vai fazer quando chega, porque saiu no meio de um fio de pensamento que ainda não terminou. Não há sensação melhor do que chegar pronta para continuar. E há momentos em que você está a todo vapor, muito motivada, e de repente bate numa parede — seja porque o caminho que seguiu não levou aonde queria, e agora precisa voltar e repensar tudo, seja porque você se cansa. A vida acontece. É curioso como o trabalho pode ser uma distração na vida. Muitas pessoas usam isso como escapismo. E, embora seja um escapismo mais saudável do que “sexo, drogas e rock’n’roll”, ainda pode ser um estado de                             dissociação. Acho que o que chamamos às vezes de “perdi a noção do tempo” é simplesmente dissociação. Mas há também um trabalho em que se está presente o tempo todo. E sempre tomo cuidado para não confundir essas duas coisas. Quando tudo já foi planejado e você está executando, é fácil que esses dois estados se aproximem.

MW: Às vezes!

TB: Às vezes, sim. Se você está trabalhando ativamente na tela e precisa improvisar cem por cento, acho que não dá para cair nesse estado dissociativo mais fácil.

Tuna Bora, Good Morning Starshine, 2022. Acrílica e pastel sobre tela, 20,3 × 20,3 cm. Coleção particular.

MW: Em teoria, sim. Mas, para mim, há dias em que teço mais do que imaginava possível e isso é muito alegre, e há dias em que tenho prazo e fico travada num centímetro o dia inteiro, enlouquecendo. Mas é curioso você falar de dissociação. Às vezes sinto que não estou exatamente dissociada, mas meio que surfando.

TB: Claro. Praticar qualquer forma de criatividade que dê um novo ritmo ao dia, mental e físico, é algo bonito. Mas também existem as escolhas que você faz para permanecer atenta ao que acontece com você e ao seu redor enquanto trabalha. Às vezes há prazos e você simplesmente precisa continuar. Quando termina um corpo de trabalho sob um grande prazo… é engraçado, eu só descobri isso quando comecei a pintar, mas há uma conversa entre pintores — e provavelmente entre todos os artistas — de que, quando você termina uma série e ela vai para a parede, vem uma espécie de depressão de um mês.

MW: Pós-parto!

TB: Exatamente. Um pós-parto do trabalho feito. E parece que algumas das coisas que você descreve — essa alegria intensa — fazem com que você continue, porque está no meio de algo e não pode simplesmente abandonar. Às vezes, se estou usando aerógrafo, é particularmente doloroso, porque sei que mesmo se parar agora, ainda há trinta minutos de limpeza, então não dá para sair.

MW: E você continua.

TB: Exato. Mas, de certa forma, isso também é pegar emprestado do mês seguinte de exaustão e vazio. É quase como se você estivesse numa cozinha com todos os seus amigos — todas as pinturas ou tecelagens ao seu redor, conversando entre si e com você — e, de repente, você fica sozinha no ateliê.

MW: Muita energia é direcionada para um só lugar. Acho que isso acontece até com crianças na época de provas finais. Mas na arte é muito particular, porque também há muita alegria em soltar o trabalho no mundo.

TB: Sinto o mesmo.

MW: Algumas pessoas ficam felizes em manter o trabalho no ateliê, sem nunca mostrar a ninguém. E isso é ótimo, se é o que elas querem. Mas no meu caso, o trabalho não é só para mim. Então, quando ele está no mundo e as pessoas podem vivenciá-lo, esse é o momento mais significativo para mim. Mas, sim, o pós-parto é muito difícil e muito real. E sempre me pergunto se seria menos duro se eu trabalhasse de forma menos intensa ou com uma agenda mais equilibrada. Quando estou trabalhando numa peça grande, é impressionante como a casa vira um caos em uma semana. Chego do ateliê tão cansada que jogo a roupa num canto, deixo a louça para o dia seguinte, e isso vira uma bagunça enorme… E sinto muita vergonha disso. Fui criada para cuidar de tudo ao meu redor, e ver as coisas desmoronando me dá nojo. Eunão gostaria que alguém viesse à minha casa nesse estado. Lembro quando estávamos no Eightfold, aquele café entre nossas casas, e você disse: “claro, é isso que artistas fazem! Colocamos toda a nossa energia nessa coisa porque estamos parindo algo. Você está fazendo algo que exige toda a sua energia”. Foi tão bom ouvir isso!

Mia Weiner, imagem de instalação de Sirens na T293, Roma, Itália, 2023. Cortesia da artista e da T293.

TB: Acho que esquecemos que muitos artistas com “A” maiúsculo na história da arte tinham pessoas fazendo todo o trabalho doméstico. Sim, alguns artistas eram pobres e faziam tudo sozinhos, mas também viviam uma vida boêmia. E, sem querer trazer gênero para isso desnecessariamente, não sei se um artista homem sentiria esse mesmo nível de vergonha. Historicamente, os homens sentiram mais pressão para serem grandiosos do que para manter a casa limpa.
Mas também acho que o que acontece fora do ateliê informa a prática. Muito do crescimento acontece em outros lugares. Por exemplo, ao construir o trabalho, a vergonha que surge ao deixar certas coisas da casa de lado… essa vergonha só torna mais difícil lidar com isso. Ela não limpa o apartamento. Então vejo essa condição da sua casa como uma chance de examinar o quão dura você está sendo consigo mesma — o que também acontece na sua prática artística. Aprender a suavizar em uma área sempre ajuda a se mover emocionalmente de forma mais fluida no trabalho.

MW: Isso é justo. Mas se tirarmos a vergonha e pensarmos nisso dentro da minha prática e da minha vida, eu gosto muito de acumular coisas. Fico muito intensa, faço ninho, ninho, ninho, até me ver cercada de materiais.

TB: Até explodir.

MW: E aí não consigo focar. Tem coisa demais e isso me deixa louca! Fico ansiosa e levo mais uma ou duas semanas para limpar o ateliê, guardar os fios, tirar as tecelagens da parede. Aí vira uma tela em branco, algo novo para começar. Então passo por esses ciclos de limpeza, acúmulo e retorno, ao contrário de pessoas que gostam que o espaço esteja sempre igual. Eu gosto desse ciclo.

TB: Eu também. E acho que tudo o que vemos como disciplina ou planejamento é um subproduto da Revolução Industrial — ensinar às pessoas que há horas certas para dormir, trabalhar, um horário específico para almoço. Não acho que o trabalho funcione assim.


MW: Também acredito que fomos ensinados a muitas dessas coisas de uma forma muito distorcida pelo capitalismo. As pessoas são muito diferentes.

TB: Exatamente.

Estúdio de Mia Weiner, Los Angeles. Cortesia da artista.

MW: Sou aquariana. Sou toda bagunçada, certo? Conheço pessoas que são mais produtivas em horários muito específicos. Geralmente virginianos.

TB: Olha você, indo fundo [risos]!

MW: Vamos lá! Eu adoro virginianos. Tenho amigos que, não importa o quê, vão escrever ou desenhar naquele horário específico, e isso funciona para eles. Eu invejo isso, mas quando tento fazer assim, não funciona para mim. Então me deixo passar pelos meus ciclos.

TB: Entendo o que você diz, mas isso ainda fala de produtividade.

MW: Sim. Talvez uma melhor forma de colocar seja que não me sinto conectada a trabalhar assim. Algumas pessoas se sentem conectadas aos materiais quando trabalham dessa maneira. Não falo necessariamente de produtividade, porque muitas vezes, quando escrevem de manhã, podem jogar tudo fora depois. Não importa. É um ritmo de trabalho que elas têm e apreciam, com começo e fim.

TB: Entendo.

MW: Você ainda pode discordar [risos].

TB: Não é discordância. Estou só elaborando. Para ficar boa de verdade e fluida, você precisa aceitar fazer coisas que serão descartadas e se obrigar a trabalhar mesmo quando não tem vontade. Há muito espaço entre o totalmente boêmio e o totalmente estruturado. Mas há temperamentos que, se não produzem um certo número de páginas, joguem fora ou não, ficam ansiosos. Existem soluções diferentes para pessoas diferentes. Encontrar-se onde você está emocional e mentalmente é importante.

MW: Faz sentido.

TB: E sinto que isso também vem de termos nos condicionado demais. As pessoas se saem melhor quando não são tão duras consigo mesmas, quando conseguem ver seu tumulto interno e escolher entrar nele ou não. É aí que surge essa fluidez de movimento.

MW: Se é duro demais, não floresce.

TB: Há algo disso, sim. Talvez seja um pouco poético demais, mas penso nisso como o sol e a lua — não nas horas, mas no fato de que ambos estão sempre no céu. Eles sempre se sobrepõem de alguma forma. O que é difícil com as demandas do mundo da arte é que uma exposição raramente te dá tempo suficiente para entrar num conceito e produzir uma quantidade significativa de trabalho.

MW: Mesmo quando tenho um ano e meio para trabalhar numa mostra — o que é incrível — a maior parte do trabalho acontece nos últimos quatro meses.

TB: Gosto de como você fala “quatro meses” como se não estivéssemos todos esperando até muito mais perto do prazo [risos].

MW: Bem, fisicamente não dá. Provavelmente seria menos se fosse possível. Mas nesses últimos meses ninguém me vê e fico maluca. Mas adoro ficar maluca no ateliê. Na verdade, o prédio onde fica meu tear tem horários fixos, então preciso sair à meia-noite e só reabre às seis da manhã. Isso quebrou o mau hábito de virar a noite, pelo qual sou meio grata. Mas quando me tranco lá, finjo que não estou. Espero que meu locador não esteja ouvindo. E quando eles vão embora, há uma alegria enorme em continuar trabalhando.

Mia Weiner, sem título, 2022. Algodão e fio acrílico tecidos à mão, 112 × 137 cm (208 × 137 cm com franjas). Cortesia da artista.

TB: Eu adoro trabalhar de madrugada e me recuso a me sentir mal por isso. O que gosto é quando o mundo inteiro está dormindo — o que não é verdade, porque metade do mundo está acordada. Mas minha família vive cerca de onze horas fora do meu fuso, na Turquia. Talvez isso me coloque num espaço mental liminar que eu gosto muito. São momentos em que me sinto mais solta. Gosto de ouvir música, dançar e cantar alto enquanto trabalho. Acho que é assim que as pessoas se sentem quando estão bêbadas e dançando.

MW: Sinto isso também. Eu tinha parado quase totalmente de beber e desacelerado em várias coisas, e o ateliê ficou diferente. Isso me faz pensar em pessoas como Jackson Pollock. Dizem que as pinturas dele eram ruins quando estava sóbrio e que ele precisava beber para fazer bom trabalho. Não sei se é verdade, mas essa é a narrativa. Quando comecei a brincar com meu sono, percebi que estar muito cansada me permite soltar. Eu estava cansada demais e sem tempo, então não sofria tanto para tomar decisões. A decisão precisava ser tomada e eu tinha que confiar nela de outro modo. Mas é muito interessante ouvir você falar desse espaço liminar.

TB: Há poucas pessoas com quem consigo ficar ao telefone tendo conversas profundas por três, quatro horas, e é lindo ter isso enquanto faço coisas. É um ritmo diferente de cantar e dançar. Mas acho que tudo isso pertence ao trabalho. Dá para ver nas camadas: alguns momentos são muito energéticos, outros mais reflexivos. Engraçado você mencionar Jackson Pollock. Existem esses mitos sobre artistas — essa ideia de que, se você não sofre, não é real. Isso coloca a dificuldade num pedestal. Há muita espiritualidade de autopunição no mundo ocidental. Muita culpa e vergonha por não trabalhar o suficiente ou não sofrer o suficiente pelo que se ama. Autossacrifício.


MW: Você acha que isso também é uma forma de manter artistas para baixo?

TB: Acho que acaba se tornando isso. E vale para outros trabalhos também, não só arte.

MW: Uma das coisas mais marcantes da pós-graduação — e pelas quais sou grata — foi ouvir Jeffrey Gibson dizer que você não precisa sofrer para ser artista [risos]. Na época, isso explodiu minha cabeça, e não deveria ter sido tão surpreendente. Ele falava sobre como entrou numa relação melhor, a vida melhorou e o trabalho também.

TB: Isso é importante. No fim das contas, você só vive uma vez, não é? Então precisa decidir quanto vai viver e com que qualidade.

MW: Todos vamos passar por coisas. É a experiência humana. Não digo que sou feliz o tempo todo. Mas acho que muita gente tem medo do quão perigosas as vozes criativas abertas podem ser. Ensinar que precisamos sofrer para fazer boa arte é uma forma de manter artistas controláveis. Essa é minha teoria da conspiração [risos].

TB: É uma teoria interessante. Mas acho que ninguém além de mim mesma pode realmente me manter para baixo no que diz respeito a sofrer ou não. A mentalidade produtivista é muito abraâmica, especialmente católica ou protestante. Se você não está trabalhando, não é puro de espírito. É o capital criando espiritualidade. O que gosto na espiritualidade oriental  é a ideia de inação como ação. É preciso deixar as coisas assentarem. Na compreensão islâmica, há o pecado e o oposto do pecado, que, segundo uma amiga criada nos EUA, é o autossacrifício.

MW: Como martírio?

TB: Quase isso. É sobre se sacrificar para o bem dos outros. Sou ateísta, não sou muito espiritual, mas há consequências sociais de crescer numa cultura islâmica. Existe o conceito de sebab, quando você faz algo bom que beneficia o mundo, os outros e provavelmente você mesma. Como ajudar alguém. Não é algo de que você sai se gabando.

MW: Aprendi muito sobre isso quando estive em lugares como Indonésia e Índia. Fui criada meio judaica e meio hindu, mas num sentido muito espiritual, não religioso tradicional. Cresci rejeitando a religião por causa das dinâmicas de poder. Levei muitos anos para começar a ver a beleza dessas práticas e crenças.

TB: Pessoas que usam religião para obter poder transformaram essas instituições em algo que carrega escuridão para a vida dos outros. Mas também vejo muita bondade nas pessoas.

MW: Sim, culturalmente é diferente. Mas mudando um pouco de assunto, além dessa ideia de autossacrifício, acho que artistas também foram ensinados a ser a violeta murcha no canto. Mas acho que devemos ser os maiores defensores do nosso trabalho. É preciso criar uma espinha dorsal para lidar com críticas e se posicionar ao trabalhar com uma galeria.

TB: Verdade. Gostamos de controle, e às vezes é difícil abrir mão dele, especialmente nas áreas em que não nos sentimos confortáveis. Independentemente da prática, acho que parte do motivo de gostarmos de ser artistas é que temos algum controle sobre o que fazemos, mesmo quando o processo inclui algo orgânico e fora de controle. E a vida não é assim, certo? Somos mais interconectados do que isso.

Tuna Bora, Roommates, 2022. Acrílica, pastel e poliéster tecido costurado à mão sobre tela, 20,3 × 20,3 cm. Cortesia da artista.

MW: Sim, toda a minha prática é esse embate entre controle e liberação. Como a vida.

TB: Porque, no fim, você tem muito controle. Mas pode ser a artista perfeita, fazer tudo certo, trabalhar com as pessoas certas, e ainda assim haver uma enchente completamente fora do seu controle.

MW: Nunca sabemos o que está acontecendo. E já que falamos de controle, queria te perguntar sobre sua experiência ao passar do cinema, onde você trabalha com uma grande equipe, para trabalhar sozinha no ateliê. Isso parece natural para você?

TB: Há algo muito íntimo em criar com outras pessoas, e sinto falta disso. Não abandonei a animação, adoro esse processo. E há muitas coisas que se faz sozinha nele também. O trabalho é sempre em grupo. Talvez seja só minha visão, mas as pessoas entram nisso porque querem fazer filmes e estão entregando pedaços da vida para servir à sua visão — seja pelo dinheiro ou pelo desejo de trabalhar com você. Isso merece muita consideração. Isso não pode ser tomado como garantido; precisa apoiá-las e ajudá-las a se conectar com seus próprios caminhos. Há uma rede linda nisso, e acho que é mais gentil do que o que experimentei no mundo da arte em geral. Mas há bolsões no mundo da arte em que isso também acontece.

MW: Uma das coisas que amo em Los Angeles é exatamente isso. É uma das comunidades artísticas mais abertas e generosas de que já fiz parte.

TB: Tenho ouvido isso bastante.

MW: Não que Chicago ou Nova York tenham algo de errado, mas é diferente. Acho que isso também explica por que a cena de LA está crescendo tanto. Há uma comunidade linda entre artistas — as conversas crescem, as conexões crescem.

TB: É surreal nesse sentido. Muita gente em LA é criativa, seja daqui ou de outros lugares. Isso dá à cidade uma personalidade muito específica. Vou dizer que a comunidade de cinema em Nova York também é assim, e sempre amei isso. No cinema, há esse espírito da criança que filmava com Super 8.

MW: Isso é fofo. Todas essas pessoas juntas, colocando energia para criar algo em comum. Acho que uso outras pessoas no meu trabalho, e fico sempre impressionada com essa generosidade. Mas pensava em como é excitante você ter uma prática que alterna entre trabalhar com equipes e ter seu próprio espaço, sua bolha.

TB: É muito diferente. E acho que é o melhor dos mundos, especialmente se você tem boas relações com essas pessoas. Esta conversa parece um pouco isso.

MW: Totalmente. Também valorizo muito nossas conversas. Obrigada. Sou muito grata por estarmos fazendo isso hoje.

TB: O prazer é meu. É um prazer enorme conversar com você!

Tuna Bora, Echo.loji_Psy_#003_Grimace, 2024. Stills de vídeo. Cortesia da artista e da Feral File.

Para saber mais sobre o trabalho de Mia Weiner:  @miaweiner

Para saber mais sobre Tuna Bora: @tunamunaluna // tunabora.com

Imagem de capa: Mia Weiner, midnight sun, 2025. Algodão, acrílico e seda tecidos à mão, com pingente de ouro 14k e cristal, 109,2 × 111,8 cm (208,3 × 111,8 cm com franjas). Cortesia da artista e da Homecoming Gallery, Amsterdã, Países Baixos.

(Twitter)
Facebook
LinkedIn
Email

Related Posts