Imagem esquerda: Cícero Costa, Meu pai no dia que lacraram seu bar por associação ao tráfico numa ação da Prefeitura/Governo de SP na cracolândia, 2017. C-print, dimensões variadas. Image direita: Cícero Costa, Minha mãe no seu trabalho, Brás, 2017. Impressão em gelatina de prata, dimensões variadas. Cortesia do artista.
Algo naquela proposição conversava quase que diretamente com a instalação “Arroz e Feijão” (1979), da artista Anna Maiolino.
A obra de Anna é composta por pratos de louça repletos de terra e sementes de arroz e feijão germinando. Exposta em mesas de banquete, a obra é uma crítica à fome, à desigualdade social e ao modelo econômico da ditadura militar brasileira. A instalação representa um banquete simbólico, mas inútil, destacando a ironia de um prato básico que, em contexto de crise, se torna inacessível.
Já na de Cícero, dois nomes comuns da sociedade brasileira dão nome à instalação apresentada pelo artista. Ao entrar na sala, em uma das paredes havia uma lona azul, da barraca da mãe do artista, pendurada no alto e caída ao lado. Da mesma forma, dois aventais, um amarelo e outro branco. Ao lado, duas fotos dos pais do artista: um retrato do pai na frente do trabalho dele e outro da mãe em frente ao dela. Em um espaço ao fundo, podíamos ver um buraco na parede, o artista fez uma espécie de oratório, onde colocou a imagem do Padre Cícero e um terço de Nossa Senhora. Na mesa ao lado, havia balas de goma, um saco de um salgadinho chamado Fofura, uma garrafinha de refrigerante Dolly, bolinhas de futebol feitas de fita durex e uma caixa de som que tocava músicas dos gêneros forrós e bregas.
Cícero Costa, Antonio e Maria, 2019. Instalação da exposição – “Mesa Posta”- antiga Estação Red Bull, São Paulo, 2019. Cortesia do artista.
Isso me transportou automaticamente aos anos 90, exatamente para a periferia de São Miguel Paulista, na Vila Mara. Se você fosse uma criança criada na periferia e com uma família de migrantes nordestinos, reconheceria e entenderia esses símbolos de cara. Mas parece que essa é a grande sacada de Cícero, ele não só coloca esses elementos ali para que nós os interpretemos, ele os convoca como um relicário onde as memórias de quem os entende logo se ativam. Assim foi comigo.
A memória é um tema central na obra de Cícero, que utiliza objetos e imagens para evocar a história e a identidade pessoal. Dois aventais pendurados na parede, um amarelo e outro 4 branco, e ao lado uma legenda: “Antônio e Maria”. Nomes comuns, mas também os nomes dos seus pais. O avental faz parte do imaginário sobre trabalho e, principalmente, da rotina de trabalhadores, sendo usado em diversas áreas. Ele não apenas protege quem o utiliza, mas também contribui para a identidade visual. Ao pendurá-los como quem os põe para descansar após um dia exaustivo de jornada, Cícero ilustra de forma direta as relações de trabalho. Expostos, os dois aventais mostram que ali há mais do que aparenta à primeira vista. E de fato há.
Cícero Costa, Retrato e presilha de cabelo da minha Vó, 2019. Instalação da exposição – “Mesa Posta”- antiga Estação Red Bull, São Paulo, 2019. Cortesia do artista.
A lógica do ofício autônomo nas periferias é uma questão que afeta milhões de pessoas em todo o mundo. No Brasil, por exemplo, a economia informal é uma realidade para muitos trabalhadores, forçados a se submeter a condições precárias e mal remuneradas para sobreviver. Por trás da ideia de maior liberdade e flexibilidade, esconde-se o fato de que o profissional, muitas vezes, está em dedicação total. A vida de quem é autônomo passa a ser aquele lugar, e todas as relações passam a ser mediadas por ele.
Cícero Costa, Bolacha e Danoni, 2024. Farinha e água, dimensões variadas. Cortesia do artista.
Na perspectiva marxista, o trabalho é a atividade que pode organizar a vida, estabelecer ritmo, prioridades e construir a identidade do indivíduo. Diferente de um simples esforço físico, é uma ação consciente e planejada. Entretanto, na lógica capitalista, o trabalho se baseia na compra e venda da força de trabalho, em uma busca contínua pelo máximo lucro e pela acumulação de capital, onde o trabalhador perde o controle sobre o que produz, sobre o processo e sobre si, transformando sua criatividade em uma mercadoria de troca, e essa troca, na maioria das vezes, não é equilibrada.
Enquanto fundamento da dignidade, o trabalho ofereceria a autonomia financeira que permite o sustento próprio e da família. Enquanto valor, afinal, se o trabalhador tudo produz, a ele tudo pertence. Entretanto, o trabalhador produz, mas o produto final e o valor gerado não são por ele apropriados. Toda a riqueza social é criada pela classe operária.
Cícero Costa, Minha mãe dançando forró. 2019. Da série Carta de Despejo. Impressão em gelatina de prata, dimensões variadas. Cortesia do artista.
Seja “o trabalho dignifica”, ou a máxima contemporânea “trabalhe enquanto eles dormem” ambas, refletem uma cultura focada na meritocracia, na alta produtividade e no sacrifício pessoal em busca de sucesso. A ideia de que o trabalho enobrece, honra e engrandece algo ou alguém pode se tornar uma característica que gera uma relação intrinsecamente conflituosa: de um lado, a atividade laboral como forma de exploração, que visa o acúmulo; do outro, o trabalhador, que busca meios de subsistência e vê nessa prática, fonte de propósito e dignidade. Esse segundo aspecto transforma o esforço extremo em uma vantagem competitiva.
Cícero nos mostra isso em detalhes carregados de significado. O espaço de nostalgia e familiaridade criado pelo artista não é só um culto à memória familiar, mas nos permite mergulhar nas camadas de significado que aqui se apresentam como um campo de batalha, onde as vozes silenciadas pela história são relembradas e valorizadas.
Imagem direita: Cícero Costa, Fogão, 2017. Da série Carta de Despejo. Impressão em gelatina de prata, dimensões variadas. Right image: Cícero Costa, Meu pai conversando com minha mãe, TV ao fundo, 2017. Da série Carta de Despejo. Impressão em gelatina de prata, dimensões variadas. Cortesia do artista.
O diálogo entre “Antônio e Maria”, de Cícero Costa, e “Arroz e Feijão”, de Anna Maiolino, compartilha uma crítica social e uma reflexão sobre a memória e a identidade, utilizando uma resolução plástica descomplicada. Ambos os artistas elevam e sofisticam a capacidade de uma obra fazer uma crítica social.
Cícero, Favela dos Sonhos – Ferraz de Vasconcelos, 2022. Impressão em gelatina de prata, dimensões variadas. Cortesia do artista.
Cícero Costa, Sem título, 2018. C-print, dimensões variadas. Cortesia do artista.
Cicero Costa, pseudônimo de Wallace da Silva Costa, São Paulo, maio de 1994. Filho mais novo de Maria Alice da Silva Costa e Antonio Francisco Mendes Costa, ambos migrantes nordestinos.
Suas referências humanas e estéticas se desenvolveram a partir do seu contexto geográfico e familiar; através dos ofícios de seus pais, a região onde cresceu e trabalhou, entre os bairros do Bixiga, Baixada do Glicério e Brás. Lugares que foram decisivos na sua percepção de mundo, e como indivíduo, o que mais tarde se tornaria nítido na sua produção, que gira torno de memórias afetivas e temas que permeiam sua vida, tais como trabalho, traumas, vícios, violência, beleza, questões culturais e de identidade.
Cícero Costa, Sem título, 2016. Série Auto Estima. Impressão em gelatina de prata, dimensões variadas. Cortesia do artista.Cortesia do artista.
Imagem de capa: Cícero Costa, Auto-retrato, 2017. Série Auto Estima. Impressão em gelatina de prata, dimensões variadas. Cortesia do artista. Cortesia do artista.









