Eu já tive alguns estúdios ao longo da vida. Comecei a pintar no meu quarto, depois pintei em uma pequena sala no primeiro apartamento que morei. Já tive ateliê em um ex-escritório de advocacia. Já pintei na frente do mar e do porto de Santos. Hoje trabalho em uma espécie de estúdio/casa e tenho imaginado qual será o próximo.
Com o tempo entendi que a prática de ateliê tem menos a ver com o espaço e mais a ver com o meu tempo, eu trabalho a noite e me adapto muito ao lugar que estou. Essa dinâmica de estúdio passou a ser aquele tipo de aspecto inegociável e indissociável da vida (como eu acho que deve ser). As vezes em que tentei domesticar horários ou idealizar lugares simplesmente não deram certo para mim.
Sempre senti a necessidade de ficar um bom tempo com o trabalho, minhas primeiras pinturas passavam pela demorada urdidura de uma trama de poros, pele, veias e artérias. Demorava meses. Foi ao longo da concepção de uma “dissecação” do corpo a partir da pintura que eu passei a fazer alguns cortes de interesse, direcionando analogias entre o corpo, a matéria do mundo geológico e o diagrama da cartografia.
Nos últimos anos passei a experimentar maneiras de “vazar” o corpo do campo pictórico através da investigação de novos materiais. Com a cerâmica fria pude controlar esse procedimento e esculpir excertos anatômicos de maneira mais controlada, expandindo a pintura para outros formatos, operando com fragmentações e descobertas de massas que se separam como continentes em deriva.
A cartografia hoje é o maior norte do meu trabalho. O mais recente deles, “Corografia Encarnada da Capitania de S. Paulo”, foi concebido através da apropriação de um mapa real de 1792. Sobre sua superfície, áreas de cerâmica fria foram esculpidas e pintadas para emular recortes anatômicos aplicados sobre áreas sangradas pelas bandeiras e assentadas pelo tropeirismo, além de zonas de serra, sertões e relevo acidentado.
Nessas operações “contracartográficas”, o mapa deixa de representar apenas um espaço registrado e passa a expor também um processo, um tecido vivo, tensionado, exposto e inscrito sobre as bases de um território que carrega as incisões e nervuras que a atlas clássico, muitas vezes, falha em revelar.
Alguns embriões do que estou propondo agora começaram sete anos atrás: foi quando comecei a tatear a mescla da anatomia e da cartografia. Digo isso ao revisitar minha prática porque acho importante afirmar que estar presente no estúdio nem sempre significa ver a materialização física do trabalho: os embates de pensamento que tive (e tenho) são linhas guias que, literalmente, mapearam a minha produção para o encontro de um corpo de trabalho que me alimenta de um senso de propósito e me instiga a continuar descobrindo o que é possível ser feito como artista.
Saiba mais osbre Luiz Escañuela @luizescanuela
Fotos: Cortesia do artista & Estúdio em Obra









