JALA

Jala reside e trabalha em São Paulo, Brasil. Sua pesquisa é focada em adereços e referências culturais populares brasileiras, como o Carnaval, interligando interesses pessoais e contexto sócio-político para entender como a realidade do Sul Global influência sua produção criativa. 

Aprendeu a costurar aos 12 anos e desde então tem feito diversos cursos sobre técnicas têxteis, incluindo tricô (manual e à máquina), crochê, tingimento natural, shibori, bordado, tapeçaria, entre outros. Além disso, completou o curso técnico de modelagem plana e malharia no SENAC, em 2016. Em 2021, graduou-se na Escola de Arte da Universidade de São Paulo, com foco em Escultura. Seu trabalho acadêmico baseou-se em pesquisa multimídia, incluindo látex, tecido, performance e instalação em vídeo. 

Desde 2020, tem trabalhado em sua própria marca chamada JALACONDA, a qual possui inerente conexão com o ambiente musical, abrangendo desde o pop e sertanejo até a cena techno. Essa conexão garantiu a presença da marca na esfera cultural local e continua a alimentar a conversa entre moda e cultura de rua. 

Fantasma

Gosto de enxergar meu trabalho como algo que carrega sempre um vazio, ou melhor, uma reminiscência, uma marca de algo que antes estava ali: um fantasma. Mesmo se tratando de escultura em sua maioria existe aqui o pensamento de matriz advindo da gravura, a existência de um objeto único inicial que dita a construção do conjunto final. Sinto que em muitas peças a parte é sim maior que o todo e o processo é mais presente que o próprio objeto final. 

Obsessão

Não penso muito no objeto concluído e também não costumo rascunhar mais do que uma ideia vaga de silhueta. A verdade é que trabalho pelo impulso do fazer. Um impulso intuitivo e obsessivo. Nosso país e, portanto, nossa realidade são intrinsecamente violentos e portanto não consigo enxergar uma prática relevante que também não o seja em sua própria forma, seja esta qual for. Para mim prática é vício e, em seu corpo, sensualidade e dor são essenciais. 

Resiliência aqui é um dos pilares da radicalidade, o prazer da existência inequívoca do gesto que se repete incontáveis vezes, violento em sua ordem e silêncio.

O ato de adornar

Construo objetos para adornar e adorno para construir sentido. Por muito tempo pensei que, no campo da moda, ter uma marca significava criar uma gama de produtos coerentes entre si. Descobri, eventualmente, que é verdadeiramente sobre criar uma nova realidade, um universo paralelo, e encantar as pessoas para dentro dele. Nesse aspecto moda e arte se assemelham, é necessário criar um mundo próprio onde a teoria que o originou seja capaz de se provar e se sustentar sozinha, independentemente da sua verossimilhança em qualquer outro mundo, físico ou imaginário. 

Ordem e Decoração

Dentro das diferentes áreas de atuação da minha prática, costumo pensar que meu interesse é em construir objetos e destruir imagens. Ambos, porém, seguem uma espécie de mesmo ‘princípio do fantasma’, são gerados por um processo de adição violento que ao final acaba destruindo os signos iniciais e criando uma amálgama de resquícios. Isso significa que pouco é possível de se reconhecer os elementos que compõem a obra e seus posicionamentos, mas sua construção é gerida por uma lógica interna de repetição que segue uma ordem com variações aplicadas, prática semelhante ao ato do artesanato, ou em sua forma ampliada, da decoração. 

O corpo e a Fé

A ideia de decoração me interessa muito especialmente na sua intersecção com o religioso, muitas vezes penso na roupa ou na tatuagem como na ornamentação de um templo. Se o objeto construído é o fantasma, o corpo que o veste é a ilustração do místico em si, algo incerto, vivo, presente, mutável.

Fé é mais uma das palavras fundamentais que constroem a prática do trabalho. Não existe fazer sem sonho e crença. 

Carnaval

Fé é também uma das questões centrais do Carnaval. Presenciar um desfile é ser invadido pela sensação do absurdo, o samba enredo como mantra, a magnificência das alegorias como utopia realizada. A repetição persistente repleta de variações através das alas, criando sua narrativa e, através dela, seu próprio reino, terreno e divino. 

O Carnaval me ensinou a enxergar progressão de cor, como quando a cor de um detalhe de pena de ganso na ponta da lança em uma fantasia em certa ala se repete como cor do costeiro de plumas de avestruz na próxima, se expandindo em forma e intensidade.

Igualmente me ensinou a ver materialidade, como quando uma cabeça de milhares de franjas de plástico reluzente aparece transmutada na ala seguinte como balaclava de palha. O Carnaval me trouxe senso de pertencimento e comunidade e a certeza de que o impossível é o único caminho a se seguir. A fantasia não é uma representação, ela é a própria verdade de seu império elevada à figura enquanto a bateria tocar. 

Xadrez e Módulo

Uma das bases de construção da obra é o uso do xadrez, tanto como elemento estético quanto como guia. Esteticamente o xadrez remete a certas áreas de estudo pessoal como: jogo, circo, estampa; sendo a ideia de jogo, mais primordialmente de vício, desejo e risco, a principal.

Esteticamente o xadrez é uma forma de criar e replicar um certo padrão, a partir dele é possível criar módulos e visualizar sua posição quando já inserido em uma peça. Por exemplo, ao se fazer um módulo em L é possível ver com qual cor ele foi iniciado pelo canto superior esquerdo e em qual direção ele está considerando que todas as junções de argolas são feitas em uma mesma direção. Dessa forma, padrões simples ou muito complexos são construídos a partir do mesmo princípio e podem ser reproduzidos por um olho bem treinado.

Composição

Me considero primordialmente uma pessoa que compõe. Brilhante, fosco, transparente, translúcido, opaco, manchado, bicolor, multicolor, reflectivo, metalizado: dentro de um campo muito restrito de objetos é possível encontrar infinitas superfícies e a partir delas estabelecer um delicioso equilíbrio de projeção de luz, cor e textura. Verticalidade, horizontalidade e espessura também são fatores essenciais a se considerar na proporção até mesmo de um único pino de cada peça. 

Peso e Equilíbrio

Considerando que cada objeto criado será vestido, uma das partes mais complexas e demoradas é a de encontrar o equilíbrio para que, independentemente do peso, a invenção possa ser utilizada pelo tempo que for necessário. O objetivo é convidar o usuário à fantasia, som e tato são bem vindos, entretanto é imprescindível que corpo e artefato estejam em sincronia para que a ilusão se integre de fato à quem a porta. Para tal, recorremos ao uso de algumas finalizações esportivas, como o uso do elástico e de apoios anatômicos, equilibrando estética e usabilidade.

Música e Presença

A música é uma das formas de arte mais permeáveis na sociedade e exerce um papel fundamental na implementação de novas ideologias no público mais amplamente. É, portanto, uma honra e uma responsabilidade fazer parte de uma área capaz de moldar mentes em grande escala, por mais que ela exija a simplificação e muitas vezes a perda de diversos conceitos para otimizar a comunicação dentro de um sistema capitalista.

Apesar dos obstáculos, é importante lembrar que toda forma de inserção na cultura popular é valiosa e um aprendizado sobre o contemporâneo, por isso como artista não acredito em nenhum tipo de ‘pureza’ ou isolamento e faço questão de estar presente, bem ou mal, nas áreas que me incomodam, assustam ou até mesmo com as quais não concordo integralmente.

Acredito que a prática artística deva ser um diálogo e não um monólogo. 

Para saber mais sobre Jala visite @jalaconda

Fotos: Cortesia de artista

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