A história não é apenas o registro de grandes eventos. É o acúmulo de vidas comuns atravessando circunstâncias ordinárias. No Carnaval. durante alguns dias, o comum entra de férias e o improvável assume o comando.
Fotografia, para mim é um instrumento de confronto. Com o mundo, com o outro e com o tempo. Foi com essa ideia que comecei um projeto que dei o nome de Brasil em Trânsito, que venho construindo há anos e que, volta e meia, me leva para lugares onde o país parece mais visível. O Carnaval é um deles.
Sempre fotografei pessoas. O que me interessa é gente. Rostos. Corpos. Gestos. Presença. Quando isso funciona, a imagem deixa de ser só um retrato e vira pista — um indício de como somos e de como estamos.
Não existe atalho para entender o Brasil sem olhar para quem o habita. Paisagem ajuda, arquitetura também, a geografia explica muita coisa — mas nada substitui um rosto. O Brasil, no fim, começa e termina nas pessoas.
Pode parecer evidente. Não é.
Basta ver como o país costuma aparecer por aí: às vezes como ideia, às vezes como caricatura. O povo vira número, estatística, manchete. Raramente indivíduo.
Meu caminho sempre foi o contrário: parto do indivíduo para tentar chegar ao coletivo.
Esse olhar não nasceu pronto, foi pegando prática na estrada. Ao longo de mais de vinte anos trabalhando na industria audiovisual, em filmes, séries e documentários, viajei o Brasil de cima a baixo — de capital a vilarejo, de asfalto a trilha, da floresta ao sertão. Estive em lugares onde o Estado chega mal e tarde. Em boa parte dessas andanças levei comigo uma Rolleiflex de 1963, quase como um amuleto.
Sempre que um rosto me atravessava, a velha câmera saia da bolsa. Entre um plano e outro, num intervalo, no fim de um dia de filmagem, numa folga. Fotografar era a forma guardar aquele encontro com o Brasil.
No começo, era só impulso. Depois percebi que aquelas imagens formavam algo maior. Eram pequenos pedaços de Brasil — e juntos, começavam a contar uma história.
Eram exercícios de atenção. Hoje, reunidas, já passam de centenas e mostram um país em constante mudança. O Brasil de vinte anos atrás já virou outro. O de dez também. O tempo, para a fotografia, não é inimigo, é cúmplice.
Há nisso uma ambição discreta: registrar um país vasto demais para caber numa definição só. Talvez o país mais plural de todos?
O Carnaval entra nesse percurso como um capítulo especial.
Se o cotidiano mostra o país em marcha lenta, o Carnaval mostra o Brasil em alta rotação. Embriagado de felicidade.
Escolhi o Rio de Janeiro, minha cidade natal, os bairros vizinhos, locais muito familiares em minha vida ordinária para registrar o Carnaval. A verdade é que pouco fotografei o Rio ao longo desses 25 anos. Santo de casa não faz milagre, diz o ditado. Resolvi contrariar o ditado e me impor o desafio de olhar o extraordinário dentro da minha própria paisagem.
E o Rio não decepciona
A rua por onde passo todos os dias, com pressa e distração, de repente muda de personalidade. Cheia de gente quase sem roupa, coberta de glitter e uma alegria desproporcional. Em poucos dias, a cidade troca de pele.
O Carnaval não tem roteiro, não tem forma fixa, não tem manual. É uma desordem organizada ou uma organização desordenada, dependendo do ponto de vista. Mas a desordem é regra.
E fotografar isso é aceitar que a melhor estratégia é caminhar. Sem parar.
Fotografia de rua é feita de atenção, insistência e sorte. Eu ando, observo, espero. Repetidamente. Na maior parte das vezes não acontece nada. O momento passa, a cena se dissolve, a foto não existe. O que sobra – e sobra pouco – é o que está aqui.
Talvez seja essa raridade que dê valor às imagens.
Sou econômico nas ferramentas para uma empreitada como essa. Uma câmera de medio formato digital e uma lente fixa, nada mais. Leve e ágil. O que importa são as pessoas. Sigo usando a mesma Rolleiflex em varias situações, mas para o Carnaval, o digital entrega velocidade. Saio de casa no final da tarde, quando a indomável luz tropical passa a criar longas sombras deitadas. Fico em campo por apenas 3 ou 4 horas. Parece pouco, mas a intensidade do jogo é muito alta. A intuição é o guia.
Os rostos que encontro no Carnaval não são diferentes dos que vejo o resto do ano. São os mesmos brasileiros, só que em volume mais alto. Há cansaço e euforia, timidez e ousadia, fantasia e realidade. Há quem queira aparecer e quem prefira passar despercebido. Há de tudo — há muito Brasil no Carnaval. E há muito Carnaval no Rio de Janeiro.
O retrato, quando dá certo, não explica nada. Sugere.
Vivemos numa época que adora respostas rápidas. A fotografia que me interessa prefere perguntas.
O centro do meu trabalho continua sendo a dignidade, mesmo no Carnaval, quando as pessoas ficam a um passo de perde-la. Dignidade é palavra simples, mas exigente. Fotografar com dignidade é não transformar ninguém em espetáculo nem em caricatura. É lembrar que a pessoa fotografada não é personagem — é pessoa.
Quando a imagem funciona, ela não pede atenção. Ela sustenta presença.
Existe uma linha tênue entre fotografar alguém e usar alguém. Eu me me posiciono frontalmente contra o uso. Proponho criar memória.
Isso se reflete também na forma: enquadramentos diretos, luz natural, poucos truques. O preto e branco aparece bastante porque ajuda a concentrar o olhar no essencial. A cor entra quando ela é fundamental para comunicar. Esse é o caso do carnaval. A cor simplifica a comunicação em muitas situações.
O preto e branco também tem uma qualidade curiosa: embaralha o tempo. Às vezes nem eu sei dizer quando a foto foi feita. Gosto disso. Não me interessa fazer imagens datadas, mas imagens que continuem respirando.
Minha trajetória no cinema aparece de forma subconsciente. Penso no espaço, no fundo, na relação entre as pessoas e o ambiente. Cada foto tem uma pequena história ali dentro. A diferença é que, no cinema, a história se desenrola. Na fotografia, ela precisa caber num instante.
Isso obriga a simplificar. E a confiar no instinto.
Brasil em Trânsito não quer provar nada. Prefere observar.
Observar que não existe um Brasil só.
Que não existe um brasileiro só.
Que convivem, lado a lado, projetos de país radicalmente distintos.
Há algo de político nisso, embora não partidário. Política, nesse caso, é decidir quem entra no quadro e quem costuma ficar de fora. Ao colocar no centro pessoas que raramente ocupam o centro, faço uma escolha.
O Carnaval é um dos ensaios desse percurso — assim como foram os Ashaninka do Envira, a fé cristã de Aparecida, o quilombola Carinhanha, as raízes escondidas de Minas Gerais… Cada experiência alimenta o mesmo projeto.
No fim das contas, fotografia é um jeito silencioso de escrever história.
Há, portanto, um desejo claro de deixar um rastro. Não um monumento. Um conjunto de imagens que, daqui a décadas, permita a alguém dizer: era assim que eles se viam. Era assim que eles se mostravam. Era assim que existiam. Era assim que brincavam o Carnaval.
Espero que essas imagens não façam barulho.
Espero que eles permaneçam.
E, num mundo apressado, permanecer já considero um belo feito.
@dantebelluti // vimeo.com/dantebelluti
Fotos: Dante Belluti



















