Dan Coopey

Na Idade Média feudal, os dízimos ao senhor feudal eram pagos em alqueires – um cesto cheio – mas, como observa o antropólogo James C. Scott, um cesto “poderia ser ajustado pelo desgaste, pelo inchaço, por truques na tecelagem, pela umidade, pela espessura da borda e assim por diante”, permitindo artimanhas de ambos os lados e apontando também para o objeto tecido como um ponto de interseção entre o corpo, o trabalho e a sociedade civil.

Meu trabalho investiga como a tecelagem está no cerne do mundo moderno: a base da arquitetura; um protótipo da cerâmica; uma ferramenta tanto para caçadores-coletores quanto para agricultores; um objeto fundador da medição, uma unidade de pagamento de impostos; um símbolo do capitalismo e do comércio. A tela do pintor, esticada e costurada em torno da moldura de madeira, também segue princípios estruturais herdados da tecelagem.

Os trabalhos que tenho produzido mais recentemente, para minha exposição Satellites na Corvi-Mora, em Londres, são os primeiros que criei desde que passei a viver fora da grande metrópole. Essa mudança se reflete tanto no material quanto no modo de construção das peças: as fibras brutas são mais difíceis de encontrar longe da cadeia de suprimentos interconectada e da economia de distribuição em massa, que a própria cestaria ajudou a estabelecer. Em resposta, entrelacei fibras compradas com fios e cordas que eu mesmo torci e entreteci a partir dos recursos do ambiente rural ao meu redor – um paradoxo que evidencia a alienação da natureza dentro do capitalismo extrativista.

Cada escultura leva cerca de um mês para ser concluída, e a trama se torna uma extensão do meu próprio corpo nesse período. Cada torção e dobra no trabalho reflete o movimento contínuo da produção. Durante esse processo, o corpo precisa gerar uma grande tensão nas fibras e, em troca, as fibras criam tensão nos tendões do corpo, os cordões que conectam cada músculo. É um trabalho árduo.

Nunca planejo a forma de uma escultura com antecedência; em vez disso, cada peça emerge organicamente por meio de um processo íntimo e intuitivo. Anni Albers escreveu sobre dar ao objeto a chance de se projetar sozinho, e penso da mesma forma sobre as peças que crio – elas se fazem por si mesmas. Aprendi, de fato, que lutar contra a direção natural da trama raramente gera um bom resultado. A partir desse ponto, ao longo do tempo, o objeto final ainda passa por novas transformações: os efeitos da gravidade determinam como ele cairá ou se apoiará – seja pendurado na parede, repousando no chão ou, como no caso de Beer Belly (2025), acomodando-se sobre um banco.

4 Dozen Minus 1 (2025) é um recipiente tecido, com uma malha semelhante a uma rede na frente, contendo cascas de ovos inteiras e sopradas. Sua forma ligeiramente surreal, acentuada pela verticalidade contra a parede, faz referência à tradição de coletar e armazenar ovos em cestos, ao mesmo tempo que se apresenta como uma espécie de ninho. A malha é tecida com um cordão plástico achatado, projetado especificamente para imitar a palha de palmeira frequentemente usada para amarrar ervas e vegetais em mercados de grandes cidades como São Paulo – um substituto para a palha natural ainda empregada para esse fim em áreas rurais. Esse plástico dialoga com as cascas de ovos verdes dentro do recipiente, um produto da engenharia genética, resultado do cruzamento seletivo de galinhas para gerar ovos.

Ao produzir e exibir essas obras em um espaço confinado, tornei-me mais consciente dos cheiros das fibras e de como evocam memórias específicas. Auricle (2025), feita de uma trança contínua de buriti, exala um aroma que me transporta para os fardos de feno em que brincava quando criança na fazenda dos meus avós. Essas lembranças da infância retornam também em Potgaston (2025), uma peça que remete a um fardo de feno, com sisal laranja usado para amarrar o tecido feito à mão à sua estrutura de madeira – um material tradicionalmente empregado por agricultores para amarrar grama cortada, embora hoje em dia muitas vezes substituído por equivalentes sintéticos.

Nesta exposição em Londres, exploro múltiplas narrativas, entrelaçando histórias grandes e pequenas dentro da composição das obras. Potgaston, por exemplo, faz referência ao chassi de uma pintura, sendo parte de uma série de “telas” tecidas e tingidas à mão, cada uma envolvendo uma estrutura de madeira encontrada. Já Pierrot (autumn/winter 2025) (2024) remete ao universo da moda. Outras esculturas, por meio de dobras e sobreposições, retornam à minha recorrente investigação sobre o receptáculo – uma teoria especulativa sugere que a cestaria precede a cerâmica, com a segunda emergindo do barro moldado sobre tramas de fibras. Além disso, abordo a evolução das embalagens, desde os cestos entrelaçados até a invenção relativamente recente do papelão. No fim, todas as peças retornam à figura do artesão, com as fibras entrelaçadas funcionando como uma segunda pele, o corpo tornando-se parte do ambiente que habita.

Pesquise mais sobre Dan Coopey  @dancoopey

Fotos P&B: Anita Goes // Fotos coloridas das obras e vista da exposição: Melissa Castro Duarte. Cortesia do artista.

EXPOSIÇÕES SOLOS 

Satellites, Corvi-Mora, Londres (2025)

The Double, Galeria Central, São Paulo (2023)

Brunches at Wonderwerk, Espaçao C.A.M.A, São Paulo (2021)

Sunday, Galeria Estação, São Paulo (2019)

Interiors, Pivô, São Paulo (2017)

Dry, Kubikgallery, Porto (2017)

lalahalaha, Belmacz, Londres (2015)

Laura_UpsideDown, The Institute of Jamais Vu, Londres (2012)

Position 1, The Agency, Londres (2010);

Doodad, Concrete at Galeria Hayward  (2009)

SELEÇÃO DAS EXPOSIÇÕES EM GRUPO

Coletiva, Kubik Gallery Comporta, Porto (2024)

Lorem Ipsum, Espaçao C.A.M.A São Paulo (2024)

Doispontozero, Espaçao C.A.M.A, São Paulo (2023)

Tiny Creatures, Kupfer pop up, São Paulo (2023)

The Immortal, Elizabeth Xi Bauer, Londres (2022)

Beuys Open Source, Belmacz, Londres (2021)

Tramas e Travessias Parte 1 (A Troca), massape Projetos, São Paulo (2021);

Mingei Now, curated by Nicolas Trembley, Galeria Sokyo, Kyoto (2019)

(o), curated by Caterina Duncan, Galeria Leme, São Paulo (2018)

Woven, curated by Mia Romanik, Rental Gallery, NY, (2018)

Against Forgetting, curated by Kiki Mazzucchelli, ArtBo, Bogota (2018)

Rhapsodies, Ping Pong, Bruxelas (2018)

In The Peaceful Dome, The Bluecoat, Liverpool (2017)

Neither, curated by Fernanda Brenner, Mendes Wood DM, Bruxelas (2017)

Amaranthine, Kupfer, Londres (2017)

The Ultimate Vessel, Koppe Astner, Glasgow (2015)

Fibra, Von Goetz, Londres (2015)

A Merman I Should Turn To Be, (curated), Laura Bartlett Gallery, Londres, UK (2014)

Survival of the Fullest, The Politics of Food, Delfina Foundation, Londres (2014)

Fourth Drawer Down, Nottingham Contemporary (2014)

The World is Almost 6000 Years Old, The Collection, Lincoln, como parte de uma exposição em toda a cidade, com curadoria de Tom Morton (2013)

Binary, ReMap4, Atenas (2013)

Slate, a collaboration with Laura Buckley and Rob Smith como parte do Festivela, Gallery Vela, Londres (2012) and Turner Contemporary, Margate (2013)

Glaze curated by George Henry Longly, Galerie Chez Valentin, Paris, and Bischoff Weiss, Londres (2011/12)

Things That Have Interested Me, Waterside Contemporary, Londres (2012)

RESIDENCIAS

Organizmo, Colombia (2022)

FAAP, São Paulo (2021)

Fibra, Colombia (2018)

Pivô, São Paulo (2016)

ACME Fire Station, Londres (2012–15)

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