Cassandra Mayela Allen

Cassandra Mayela Allen é uma artista autodidata radicada em Nova York desde que migrou forçadamente da Venezuela, em 2014. Seu trabalho abrange mídia mista, têxteis, instalação e arte socialmente engajada, com foco em memória e pertencimento. Foi artista residente na Modern Ancient Brown (DT), Pocoapoco (MX), Campo Garzón (UY) e Bolster Arts (NYC), e é ex-aluna da Skowhegan School of Painting and Sculpture. Projetos e exposições recentes incluem a UNAM (CDMX), Olympia (NYC), MOCAD (DT) e a V1 Gallery (CPH). Seu trabalho já foi destaque no The New York Times, Bomb Magazine, Elephant Magazine, American Craft Council e Vogue México.

Meu trabalho está enraizado nas minhas experiências de vida em diáspora, refletindo a ideia de “Terceiro Espaço” de Homi Bhabha. Esse campo dinâmico permite a ruptura de identidades fixas e o surgimento de identidades novas e fluidas por meio da mistura de tradições, valores e línguas. Nesse percurso, mal-entendidos surgem com frequência à medida que nuances culturais e jargões se deslocam. Busco desafiar noções de alteridade e construir pontes entre diferentes culturas por meio de práticas participativas. Diante da intensificação da perseguição e do deslocamento de comunidades migrantes, criar espaços de engajamento autêntico torna-se essencial.

Meus projetos colaborativos ilustram como carregamos nossos costumes e nos adaptamos a novos ambientes. Utilizando tecelagem, costura, desenho e exploração de materiais, crio narrativas visuais contemporâneas focadas em migração, memória e pertencimento. Tenho especial interesse nas memórias fraturadas que emergem da distância, na tradução errônea de gírias em contextos bilíngues e no uso de materiais encontrados ou reaproveitados, que incorporam simultaneamente negligência e aceitação.

Roupas gastas evocam memórias táteis, conectando-nos ao nosso passado. Minha inspiração vem dos saberes têxteis indígenas, das memórias do Caribe e do vernacular. Ao transformar motivos populares em formas contemporâneas, meu trabalho dialoga com debates atuais. Embora a colaboração seja central à minha prática, também valorizo a reflexão individual. Os trabalhos individuais exploram a abstração e a interação cromática, utilizando minha herança para criar meditações dinâmicas sobre forma e linhagem.

Tenho me dedicado à criação de estruturas abstratas tecidas e composições figurativas em quilt, utilizando impressões fotográficas sobre tecido combinadas a materiais reaproveitados e desgastados. Também estou desenvolvendo um estilo de desenho que mimetiza a costura e o bordado, resultando em uma técnica singular de tecelagem a lápis sobre papel. Esses processos artísticos permitem investigar diferentes questões internas

Meu processo de ateliê envolve codificação por cores, corte, rasgo, costura e tecelagem de têxteis — uma forma de “resolução de problemas”, uma meditação ativa que ajuda a revelar as narrativas incorporadas nos tecidos e nas roupas com as quais trabalho. Por meio das minhas Communal Braidings, os participantes compartilham objetos pessoais para trançá-los juntos, fomentando colaboração e apoio. Esses encontros transformam histórias individuais em uma narrativa coletiva de reflexão, espelhando o conceito andino de Ayni, no qual mulheres quéchuas se fortalecem mutuamente por meio de tarefas compartilhadas.

As tranças criadas durante essas sessões evoluem para artefatos de ação coletiva, expressando os desejos dos participantes de liberarem ou acolherem diferentes aspectos de suas vidas. Inicialmente, eu acreditava que era essencial que os participantes definissem o significado de suas contribuições, mas desde então adotei uma abordagem mais aberta, focada no próprio ato de fazer. Encontrar o fluxo. Habitar o fluxo. Algo como respirar, mastigar ou engolir. Ao focar no agora, esse processo reflete nosso passado e nosso futuro, reunindo-nos como comunidade.

Minha prática é uma linguagem intuitiva inspirada na jornada do corpo migrante e nos pertences que ele carrega — retalhos de tecido, bandeiras abandonadas e roupas que funcionam como arquivos vivos. Trato os têxteis como representações da experiência vivida, impregnadas de história, trabalho e cuidado.

Atualmente, estou contextualizando o trabalho em termos mais acadêmicos para compreender melhor meus interesses. Identifiquei influências inegáveis do Modernismo Venezuelano e dos movimentos do Informalismo, bem como do Neoconcretismo brasileiro. O estudo desses movimentos tem sido estimulante e deslocou o foco de interpretações mais espirituais para a “construção e destruição da forma”, engajando-se com temas de transformação social, desigualdade de renda, o impacto da rápida industrialização e suas falhas consequentes.

Descubra mais sobre Cassandra  @cassandramayelallen // cassandramayela.me

Fotos: Anita Goes 

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