Ele coleta os restos das ruas e praias do Rio — guarda-sóis queimados de sol, toalhas desbotadas, tecidos das icônicas cadeiras de praia, sacolas plásticas amassadas, caixas térmicas de isopor das rodas de samba e as infinitamente descartadas Havaianas. Você conhece esses objetos — aqueles que se tornam emblemáticos das cidades, especialmente no Sul Global? Esses materiais são a força vital do tecido social e urbano do Rio, incorporando literalmente sua vibração, precariedade e cores. Quantos chinelos quebrados cruzam nossos caminhos todos os dias? Quantas vidas eles já sustentaram?
Ação na Praia de Botafogo, Rio de Janeiro, Brasil. Cortesia do artista.
Sua prática ressoa comigo como aquela do artista Vikram Divecha, radicado em Dubai, ressoou há uma década. Ambos se relacionam com a cidade não apenas como material ou fonte de inspiração, mas como campo de intervenções públicas. Zé e eu colaboramos em duas intervenções de arte pública com a TAP no Brasil, ambas realizadas no belíssimo Aterro do Flamengo. Fiquei imediatamente fisgada.
Zé Tepedino, Rio de Janeiro. Cortesia do artista.
O trabalho de Tepedino está impregnado do rico legado do modernismo brasileiro, especialmente do movimento Neoconcreto e de suas figuras icônicas, Hélio Oiticica e Lygia Clark. As investigações de Oiticica sobre cor, forma e espaço, assim como o apagamento das fronteiras entre arte e vida promovido por Clark, ressoam profundamente em sua obra. Na verdade, ele não apenas borra essa linha — ele nos obriga a confrontá-la.
Ateliê de Zé Tepedino, Rio de Janeiro, Brasil. Cortesia do artista.
O debate em torno da arte e do valor de uso tem sido explorado há muito tempo, de Arte Útil, de Tania Bruguera, às teorias do counter-readymade de Stephen Wright. Essas ideias influenciaram profundamente a curadoria de práticas sociais que mais valorizo, onde a arte dissolve as fronteiras entre vida e pessoas. As intervenções públicas de Zé Tepedino caminham em uma linha tênue entre o valor de uso (usership) e a ressonância poética, incorporando uma ontologia dupla que entrelaça utilidade e imaginação, função e transcendência.
Zé Tepedino, Vende-se. Tecido de cadeira de praia, tela de obra e madeira, 500 × 351 × 201 cm. Cortesia do artista.
Em uma de nossas muitas conversas, Zé se descreveu como coautor de todas as suas obras. Seu reconhecimento das marcas que as pessoas deixam nos materiais com os quais interagem — pela cidade, pela vida — é profundamente comovente. Seu processo de tecer, montar e compor com esses vestígios conecta mundos, elementos e pessoas. Em Araruama, sacos de gelo e capas plásticas de mesa perdem suas identidades, transformando-se em outra coisa. Tornam-se repositórios de memória — lembretes tangíveis de vidas vividas à margem. Essas texturas, moldadas pelo tempo e pela experiência humana, tornam-se guardiãs da memória. Elas me lembram Asterisms, de Gabriel Orozco, onde materiais descartados são transformados em obras abstratas, porém profundamente emocionais. De modo semelhante, a série de paisagens de Zé, feita a partir de restos de Havaianas e fita adesiva, se lê como poesia visual — uma ode à beleza estratificada e à precariedade do Rio de Janeiro. Aqui, a beleza não está na forma, mas no gesto de torná-la visível.
Zé Tepedino, exposição Marina na Galerie Isabelle, Dubai, 2024–25. Curadoria de Amanda Abi Khalil. Cortesia do artista.
Até mesmo os títulos que Zé atribui às suas obras carregam significado. São permeados de humor e referências urbanas, adicionando densidade textual às composições visuais. Parecem bilhetes secretos escondidos nas frestas da cidade, à espera de serem descobertos.
Zé Tepedino, intervenção pública na praia, Rio de Janeiro, Brasil. Cortesia do artista.
Zé Tepedino trabalhando em seu ateliê, Rio de Janeiro, Brasil. Cortesia do artista.
A improvisação está no cerne de sua prática. É esse espírito adaptativo e improvisado da vida urbana — de viver com o que se tem — que transita das intervenções públicas para o trabalho de ateliê. Aos domingos, é comum encontrá-lo caminhando pelo Shopping Chão — um “shopping no chão”, nome dado localmente aos mercados informais de rua — em São Cristóvão. As florestas exuberantes do Rio e sua aspereza vibrante provocam reflexões sobre descarte, consumo e a vida dos materiais na arte. Aqui, o upcycling não se trata apenas de dar uma segunda vida aos objetos, mas de honrar as histórias neles inscritas, o toque humano que carregam.
Zé Tepedino, Pássaros da cidade, 2024. Tecidos variados e barra de alumínio, 140 × 180 cm. Cortesia do artista.
Em uma era marcada pela extração de pessoas e recursos, por águas ameaçadas e pelo esgotamento dos materiais, Marina surge como um comentário sobre a cultura do excesso — um mundo obcecado pela acumulação. Um mundo em que o luxo de alguns é construído sobre a exploração de outros.
Marina sugere o poder da transformação, a beleza da imperfeição e as possibilidades que emergem quando reimaginamos o mundo ao nosso redor.
Marina significa “do mar” em latim.
Marina é o nome no chaveiro do ateliê de Zé.
Marina é luxo e exclusividade.
Marina provavelmente foi encontrada em um Shopping Chão.
Trecho do texto da exposição Marina, 2024–25. Texto encomendado pela Galerie Isabelle, Dubai.
Zé Tepedino, exposição Marina na Galerie Isabelle, Dubai, 2024–25. Curadoria de Amanda Abi Khalil. Cortesia do artista.
Amanda Abi Khalil é fundadora da Platform, uma iniciativa sem fins lucrativos dedicada a deslocar o discurso artístico e curatorial em direção a práticas socialmente engajadas e contextuais, por meio de residências, projetos de pesquisa e comissões.
Abi Khalil possui um Master 1 em Sociologia e Antropologia pela Universidade Paris 7 – Denis Diderot, além de mestrado em Estética, Artes e Cultura, com especialização em Projetos Culturais para Espaços Públicos.
Seus projetos curatoriais recentes incluem Undertow, exposição itinerante pelo Mediterrâneo apresentada no âmbito do Art Explora Festival e co-curada com Danielle Makhoul; ArtParis Art Fair 2023; A Casa é Sua: migração e hos(ti)pitalidade fora do lugar no Paço Imperial, Rio de Janeiro; www.covideo19.art; Living Room (UIT): Use It Together no ISCP, Nova York; Chou Hayda, audioguia criado com Annabel Daou e os habitantes de Beirute para o Museu Nacional de Beirute; Art at AUBMC, série de comissões de arte pública para o novo centro médico da AUH; When All Seemingly Stands Still na GreyNoise, Dubai; Kurz / Dust, co-curada com Anna Ptak no CCA Ujazdowski Castle, Varsóvia; Simple Past, Perfect Futures: Images in Countershot no CENTQUATRE, Paris; e Pippera, Pipperoo, Pipperum na Meinblau, Berlim, entre outros.
Ela lecionou na American University of Beirut (AUB), na Lebanese Academy of Fine Arts (ALBA) e na Saint Joseph University (USJ), em Beirute. Ao longo de sua carreira, curou exposições, comissões de arte pública e projetos de prática social em colaboração com instituições internacionais. Anteriormente, foi curadora do Hangar Umam D&R, em Beirute, espaço independente voltado a práticas baseadas em arquivo.
Em 2016, foi indicada ao ICI Independent Curatorial Vision Award e, em 2019, recebeu a Soros Art Fellowship da Soros Art Foundation.
Como curadora residente, foi acolhida pelo Instituto Inclusartiz (Rio de Janeiro), pela ISCP Jane Farver Residency (Nova York) e pela Delfina Foundation (Londres). Como consultora, colabora com instituições acadêmicas, museus, feiras de arte e organizações culturais, incluindo Forensic Architecture (Goldsmiths, Universidade de Londres), Joan Mitchell Foundation (Nova York), Académie Royale des Beaux-Arts (Beirute), Kunsthall Bergen, Kunsthall Stavanger, Museu de Arte de Beirute, CEC ArtsLink (Nova York), Alserkal Avenue (Dubai), Art Basel, FIAC (Paris), Art Dubai, Artissima (Turim), AFAC e Al Mawred (região árabe), CENTQUATRE (Paris), Edinburgh Art Festival, British Council e Goethe-Institut, entre outros.
Atualmente, Amanda é membro do conselho da Comadre (Brasil) e integra o comitê de aquisições da Saradar Foundation (Líbano).
Sua pesquisa curatorial concentra-se em práticas sociais, arte pública e formas experimentais de exposição, especialmente em relação a hospitalidade, cuidado radical e migração, e entre contextos como o Oriente Médio, o Norte da África e a América Latina.
Zé Tepedino, Chafariz, 2022. Cabides e madeira, 25 × 80 × 40 cm. Cortesia do artista.
O trabalho de Zé Tepedino começa a partir de uma observação atenta do que o cerca. Em seus deslocamentos cotidianos, ele se depara com materiais, espaços e situações prosaicas — elementos que escolhe revisitar poeticamente, reorganizar ou, por vezes, simplesmente evidenciar.
Ele recombina elementos diversos encontrados entre a cidade e a praia, entre o caótico e o calmo, buscando conexões entre os mundos que se desdobram diante dele. Por meio de operações simples, cria arranjos que oferecem uma nova percepção do excessivamente familiar.
Independentemente do suporte, Tepedino entende seu trabalho como ação — seja em instalações paisagísticas de grande escala, seja em monotipias sobre papel. Ao empregar diferentes técnicas — costura, pintura, escultura — ele formaliza ideias que tratam o próprio processo criativo como coautor. Sua prática atravessa tempos e tradições distintas, propondo novas maneiras de ver e perceber o mundo ao nosso redor.
Zé Tepedino coletando materiais, Rio de Janeiro, Brasil. Cortesia do artista.











