Alexandre do Anjos, Effigy Yemojá, 2025. Acrílica sobre tela, 90cm x 60 cm. Cortesia do artista.
Alexandre dos Anjos: Obrigado por topar bater esse papo comigo. A gente se conhece há uns 20 anos, né? Nossas histórias já estão cruzadas.
Karlla Girotto: Cruzadas demais. Dividimos muitas histórias, confiança e disponibilidade para os nossos processos – primeiro na Oficina de Criação e, então, ao longo da vida. Acho que, aliás, nos conhecemos há mais tempo. 24 anos, Alê!
AA: Babado, Karlla. Recentemente dei uma olhada no Instagram e no site do G>E [Grupo de Estudos e Pesquisas em Processos Criativos, coordenado por Karlla Girotto] e percebi que virou uma rede muito bacana. A Oficina de Criação veio antes disso. Você coordenava esse projeto também?
KG: Isso. A Oficina de Criação estava muito ligada ao meu fazer na moda. Naquele tempo, no início dos anos 2000, eu estava bem envolvida com o trabalho como estilista, fazendo desfiles e tal, e percebia que havia muitos talentos, mas poucas oportunidades para quem não era da classe dominante. Ainda não havia muitas políticas públicas e cotas, e fazer faculdade era algo impensável para muita gente. Então, a Oficina de Criação surgiu para dar um mínimo de acesso a estudo e oportunidade para que essas pessoas desenvolvessem seus potenciais. Eu tive a chance de me desenvolver por conta de uma bolsa de estudos, fui uma das poucas a “sair do bairro”, mas uma bolsa favorece pouca gente. Meu intuito era tentar abranger mais pessoas, criando um conselho de profissionais para ensinar e dar suporte a esses talentos. Em dado momento, negociamos uma parceria de apoio com a Faculdade Santa Marcelina. Muita coisa aconteceu. E foi lá que eu te conheci, Alê.
AA: Foi!
KG: Dez anos depois da Oficina de Criação, em 2013, comecei a pensar em ter um coletivo. O G>E nasceu como um grupo de pesquisa em arte, para discutir processos, e foi se tornando um grupo muito maior do que eu, maior do que um coletivo. Hoje, continuo fazendo encontros individuais e orientações artísticas. Eu tenho muito carinho por esses projetos. Encaro como força coletiva. Uma força de produção de vida, de pensamento. Um lugar para pensar quem nós somos. O que estamos fazendo aqui e, também, por que não nos reunimos com mais frequência pra falar do que mais importa no fazer artístico, que são as relações e a elaboração da nossa presença no mundo? Isso afeta a produção artística. Você, por exemplo, é um artista que passou pela Oficina de Criação e que eu reencontrei no G>E e nossa relação seguiu, virou amizade, parceria, compartilhamento de vida. E a gente vai se cruzando em outros lugares.
AA: Sim. E é curioso ouvir você falar da Oficina. Eu tinha um desejo muito grande de estudar moda e estudar arte. Talvez abraçar as duas coisas. Eu não pensava ativamente nessa intersecção, mas ela acabou fazendo parte da minha produção atual. Aquela experiência, de alguma forma, gerou diversas questões e curiosidades e uma vontade de investigar a vida a partir desse processo criativo. O sistema hegemônico acaba separando a arte da moda, mas ambas estão num lugar de performance, de se expor, de visualidade. A moda foi o meu primeiro “ganha pão”. Então, foi um processo não só de compreensão da minha própria produção, mas um lugar de sobrevivência.
Ações como a da Oficina trazem movimentações e trocas que expandem o nosso mundo.
KG: Absolutamente.
Alexandre do Anjos. Cortesia do artista.
Alexandre do Anjos. Foto: Henrique Lambiaz. Cortesia do artista.
AA: Eu estou lendo um livro do Frantz Fanon, Peles Negras, Máscaras Brancas, em que ele fala sobre esse contexto de alienação, que é posicionado pelo sistema eurocêntrico branco e que deliberadamente aliena o sujeito negro e o coloca num espaço do qual ele não pode sair. Como se aquele espaço fosse o único que ele pudesse ocupar. Isso acaba atravessando o psicológico dessas pessoas e elas passam a acreditar que tais espaços e acessos não são mesmo para elas. Essa imposição psicológica é algo que eu ainda levo em terapia. E tenho pensado muito sobre isso em relação à minha produção, agora que estou concluindo um
Mestrado em Artes, porque a questão racial cruza todo o contexto da minha trajetória.
KG: É um projeto de dominação e supremacia branca muito bem construído. Ele passa pelo patriarcado, pelo capitalismo. Não só passa, como é estruturado por eles. É muito difícil pensar que um projeto desse não vai, de alguma maneira, estruturar subjetivamente as pessoas, especialmente as pessoas para as quais tal projeto é desenhado. Então, como é que alguém se separa desse projeto para voltar a ser aquilo que é? O que uma pessoa racializada precisa fazer para se manter não apenas viva, mas em vitalidade?
AA: Sim!
KG: Eu venho de uma classe baixa. Então, em termos de classe, vi esse projeto de mundo tentar destinar pessoas para determinadas atividades e tipos de vida. Rejeitar esse destino e construir a própria vida é um trabalho muito grande. Se não tivermos os nossos pares para isso…Sem alianças ao longo da vida, esse trabalho fica mais difícil, desgastante, e mina a nossa vitalidade. Porque não é só uma bolsa de estudos que resolve a nossa vida. É preciso ter o que comer todos os dias, ter acesso ao transporte para chegar no lugar de estudo, ter meios de comprar os materiais – os papéis, as tintas que a classe dominante pode comprar sem dificuldades. Não é a coisa em si, apenas.
AA: Exatamente.
KG: Mas, enfim, ao longo do tempo, a gente vai percebendo outras formas de produzir a própria vida. Quando a gente olha o seu trabalho, vê você no mestrado, incorporado da sua pele, de seus fazeres e saberes… Tem um aspecto material, mas existe ainda toda uma questão de subjetividade, de autopercepção, de auto conhecimento e até de autodesconhecimento, que diz respeito às nossas partes mais misteriosas, que não são dadas para a gente conhecer e, mesmo assim, a gente se comunica com elas numa forma molecular.
Karlla Girotto, Comer a montanha, comer o bicho, comer a agua, comer a planta, . Cortesia da artista.
Alexandre dos Anjos, Sem-título, 2026. Cortesia do artista.
AA: Totalmente. Todos os corpos possuem esses mistérios. Eu acredito que o artista imprime esse mistério na própria produção artística, um mistério interno. Eu vejo isso no seu trabalho e também sinto isso atravessar o meu. É um mistério construído a partir de memórias e cria-se um afeto a partir disso. Digo, um afeto no sentido de sentir a partir daquilo e, então, começar a produzir. Você realiza trabalhos visuais e também textuais, né, Karla? E você aborda feitiço e magia. Acho que existe uma relação aí também. Fala um pouco sobre isso?
KG: Para mim, isso é uma dobra em mim mesma, sabe? Acho que tem a ver com um reconhecimento de que eu não sou só o que me é dado ou que me é permitido. Lá por 2016, comecei a entender o quanto participei de coreografias opressoras na minha própria família: uma família nordestina, do sertão do Rio Grande do Norte. Eu fui a primeira geração nascida em São Paulo. Você conhece a minha mãe. Ela é uma sertaneja que se casa com um homem branco. A partir do momento que eu nasci branca, minha mãe fez um esforço imenso para a gente parecer “sudestina”, por uma questão de sobrevivência. Eu virei uma espécie de agente de colonização subjetiva e de apagamento da minha própria família, mas só percebi isso depois de muito tempo. Quando fui pela primeira vez ao Rio Grande do Norte tive essa sensação de retorno, como se eu tomasse posse de um território subjetivo que me foi roubado. Uma retomada de posse de potencialidades e possibilidades de ancestralidade.
E essa coisa do mistério se apresentou ali, como algo muito antigo, muito mágico. Eu não sei explicar e não quero romantizar ou fetichizar. Mas era o que eu sentia. Era como se aquela paisagem comunicasse algo. Quando eu me reemposso da memória familiar, de quem eu sou, de onde eu vim, eu me reemposso de mim mesma, da magia, do mistério. É algo muito forte para mim.
AA: A gente precisa estar sempre muito atento à memória. Nossa, dos nossos ancestrais… e levar isso adiante. Porque estamos aqui construindo algo, tentando melhorar o caminho das próximas gerações.
Aliás, foi bonito ouvir sobre a sua memória e te agradeço por me contar essa história. Ela me fez lembrar algumas coisas que tenho levado em consideração na minha prática artística, porque ela também gira em torno desse feitiço e dessa magia. A magia é, de alguma forma, política porque ela movimenta a subjetividade. Eu me lembro da primeira vez em que desfilei em uma escola de samba. Todo mundo já estava fantasiado e para chegar à concentração era preciso passar pelos carros alegóricos. O caminho parecia como um trajeto para chegar ao Orum [mundo espiritual, céu ou dimensão invisível na cosmologia iorubá, paralelo ao Ayê, que representa o mundo físico]. A experiência visual tomou todo o meu corpo. A caminhada parecia um sonho em que eu pisava em algo muito leve e encontrava com a minha própria realidade, como num espelho, porque para onde eu olhava, a maioria das pessoas eram pessoas negras. Eu me arrepio pensando nisso. Atravessar o Sambódromo do Anhembi foi como um ritual de passagem, foi algo muito importante para mim. Pensei em um tio meu, o Donizete que era candomblecista e babalorixá. Essa relação entre carnaval e espiritualidade me impactou, e acabei levando essa experiência e a ideia do feitio manual do carnaval para toda a minha produção artística.
Eu me vejo um pouco nisso que aconteceu com você, Karlla. Como se houvesse dois Alexandres e no momento em que cruzei aquele corredor um incorporou o outro. É sobre compreender e continuar a lutar e a se encontrar com nós mesmos, com o nosso corpo.
KG: Que lindo isso, Alê!
Alexandre dos Anjos, Costeiro Adjá – Oxum, Exú e Ogum, 2024. Cortesia do artista.
AA: Foi muito especial ter te conhecido, não só por você ser essa bruxona maravilhosa que me mostrou muitas coisas, mas também porque parece que nossos caminhos estavam cruzados em um outro campo. A gente se encontrou nessa magia.
KG: Esse encontro entre eu e você seria inevitável, assim como os nossos encontros com nós mesmos. É a partir desses encontros que a gente cria sentido para tudo o que se é.
AA: Total. A gente converge também no fato de nossa prática artística partir do trabalho têxtil. A roupa, durante muito tempo, foi algo muito importante para que a gente pudesse se expressar, mas agora ela ganha outros significados. Uma roupa não precisa necessariamente estar no corpo para ser um objeto com vida. E ela também carrega essa coisa da memória. A arte têxtil – o tecido, o bordado, o juntar das coisas, ocupa esse lugar.
Alexandre dos Anjos, Bolsa de Mandinga I, II e III. Cortesia do artista.
Karlla Girotto, A terra é a pele da terra. Fotos: Letícia Vieira. Cortesia do artista e Itaú Cultural.
KG: Fundamental. Eu fiquei afastada da moda por um tempo, alimentando meu campo artístico de outras coisas que me interessavam. Mas o meu primeiro fazer artístico na vida se deu através de agulha, linha e tecido. Eu tinha cinco anos de idade quando a minha avó, que era costureira, me colocou para chulear roupas [técnica de costura usada para dar acabamento na borda de tecidos]. Eu tenho lembranças da minha irmã mais velha, com quem aprendi muito também… ela desenhando enquanto eu costurava. E, inclusive, costurar sempre me ajudou a me organizar psiquicamente, a me aquietar. E aí fui percebendo como o texto, não por acaso etimologicamente ligado a têxtil, também é um lugar basal de organização para mim. Às vezes, o texto vaza e vai para a exposição, vai para um texto de livro, mas é, acima de tudo, algo que permite me organizar artisticamente. E tem sido bem importante reconhecer isso.
AA: Que legal, Karlla! A questão do têxtil também está muito embrenhada no carnaval. Eu tenho pensado muito sobre assemblagem, que é uma justaposição de matérias. Eu tenho utilizado como estrutura o costeiro do carnaval e todo tipo de construção de ferragem, e aí eu dublo com tecido e transformo essa tela a partir daí. Enfim, é um objeto de ferro, com uma estrutura que eu encapo com EVA e com tecido, e depois aplico bordado e pintura. E gosto de pensar que, mesmo para os artistas que pintam, a tela é um tecido. Também é têxtil o que acontece ali.
KG: Sim, o tecido e o papel. O papel nasce do tecido. O primeiro papel, o papiro, é tecido. Existe uma relação muito forte nessas materialidades, mesmo quando é algo mais sutil.
Alexandre dos Anjos, Mestre- sala anjo d’angola- A dança com navalha, 2025. Cortesia do artista.
AA: A vida é um grande tecido, um grande texto tecido… é magia, é feitiçaria!
KG: E o tempo é tecido. Essa coisa do tempo tem se revelado bastante para mim. Eu tenho relações muito duradouras. Encontros que vêm e continuam acontecendo e quando a gente se dá conta está conversando há 24 anos. Nossa conversa não começa e termina hoje. Está sendo tecida há 24 anos, né Alê? Isso pra mim é muito emocionante e muito fortalecedor. Eu tenho percebido que, como diria a minha avó, a vida dá pra quem se dá. A memória é feita de tempo, mas também de presença. É um lugar do passado que habita o presente. Ela é um tecido do tempo. E eu te agradeço demais pela conversa.
AA: Eu que agradeço. Essa nossa troca é sempre muito especial. Sempre fui muito feliz conversando com você. Seguimos! Mais 24 anos.
Karlla Girotto, Fala. Cortesia da artista.
Para saber mais sobre Alexandre dos Anjos @alexandre_dos_anjos
Para saber mais sobre Karlla Girotto @karllagirotto













